quarta-feira, 28 de junho de 2017

Uma catadupa de emoções

             Não me refiro ao gigantesco incêndio que devorou vidas de pessoas e de animais e destruiu habituações no Centro do País e que a todos dolorosamente emocionou. Desse muito já se falou e continuará a falar. Permita-se-me, pois, que escreva sobre factos mais comezinhos, de aqui ao pé de nós, susceptíveis também de nos despertar emoção.

Povo
            Começo pela sardinhada que a Junta de Freguesia de Cascais (eu sei que se chama outra coisa, mas, como não concordo, fica assim) ofereceu no Centro de Dia da Areia, quinta-feira, dia 22. Toda uma emoção o povo a confraternizar, sem etiquetas, em torno de um bom prato de excelentes sardinhas, sangria, batatas cozidas, salada a condizer. Foi bonito de ver como aquele enorme punhado de jovens voluntários a todos serviu, prontamente, de sorriso nos lábios. Gostámos de ouvir a Ermelinda Cardoso declamara aquele poema em louvor de Cascais, de que ela tanto gosta (como que a reviver antigos tempos do Grupo Cénico…); o Toy, como alguém dizia, que lança os foguetes e corre a apanhar as canas... Foi bonito de ver a marcha do Centro de Dia do Bairro do Rosário. Povo que é Povo nunca esmorece e confraterniza hoje como se o mundo fosse acabar amanhã. Estiveram autarcas, houve discursos de ocasião; mas a emoção de estarmos juntos, os velhos e os menos velhos, a tudo acabou por suplantar, num clima sem igual!

«Santos no pátio»
Santo António a pregar aos peixes...
Nossas Senhoras e, na parede, as fotografias das autoras
Santo António teve direito a quadras e a lugar de muito relevo
            Na sexta-feira, outra vez o pessoal da chamada 3ª idade a dar cartas, a dizer que está ali prás curvas, que a vida são dois dias e que há sempre motivos para a alegria nos inundar. Os utentes dos centros de dia da Santa Casa da Misericórdia vieram mostrar, na sala que dá para o pátio interior da Rua da Saudade, o resultado de muitas horas de ocupação: inúmeras imagens de Santo António, por exemplo, para todos os gostos e quadras populares. E cantou-se. E proclamou-se bem alto que «velhos são os trapos!» e que só não se ocupa quem não quer, só não se mexe quem prefere lamuriar-se pelos cantos, num encostar-se às paredes…

Maria do Céu Guerra
Maria do Céu Guerra: ao vivo, em fotografia e em busto
Maria do Céu Guerra, agradece, emocionada
e recordou os primeiros tempos do TEC
            No Espaço TEC, uma nova exposição, devida, de modo especial, ao talento de João Vasco, que, infelizmente, já pouco pode movimentar-se e se vê forçado ao conchego do lar, mas nós sempre a pensarmos nele. Homenageou-se, desta feita, Maria do Céu Guerra. Dei-lhe, claro, aquele abraço sentido, duma Amizade que dura há tantos anos quantos o Teatro Experimental de Cascais tem. Carlos Avilez recordou, com emoção (que se me perdoe a repetição, mas é que foi mesmo assim!), os primeiros tempos, no Gil Vicente. E eu lembrei-me que íamos, com o Correia de Morais, no final dos ensaios, buscar a Céu e demandávamos o Estribinho ou, mais perto, o Luisiana Jazz Clube do Villas Boas (ao fundo da José Florindo de Oliveira). Emocionámo-nos, claro, ao evocar esses difíceis anos 60, a Esopaida (a 1ª peça que ousadamente se levou à cena), as cumplicidades, as constantes ameaças da Censura… E sublinhou-se insistentemente o imprescindível papel que o Teatro ocupa na sociedade. Emocionante, o testemunho de um dos ex-alunos da Escola Profissional de Teatro.
            Homenagem muito digna a uma grande Actriz que, sem alardes, vai seguindo o seu caminho, numa ternura imensa, que tão bem retratada está, por exemplo, no filme Os gatos não têm vertigens, recentemente passado de novo na televisão, após o êxito que teve nas salas de cinema. A Céu é assim: uma doçura, uma actriz de corpo inteiro, que Cascais e o seu Teatro Experimental tiveram o privilégio de ver dar os primeiros passos, em companhia do João Vasco, do Carlos Avilez, do saudoso Santos Manuel…

Concerto de Verão
            E, a concluir as emoções da semana, o Concerto de Verão no Boa Nova.
            Nicolay Lalov dirigiu com o rigor que lhe é reconhecido a Sinfónica de Cascais. Escolheu desta vez o jazz como tema: Cole Porter («Salute para orquestra»); Leonard Bernstein, West Side Story, com a soprano Zita Milene e o tenor Diogo Pinto; de George Gershwin, «Porgy and Bess Suite» e, a preencher toda a segunda parte, a fabulosa «Um Americano em Paris», que nos emocionou e via-se bem que emocionou também os músicos, naquele impressionante bailado de braços a que os instrumentos de corda (mormente os violinos) em tais circunstâncias obrigam.

                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal [Cascais], nº 193, 28-06-2017, p. 6.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Os fogos e a comunicação

            Permita-se-me que, perante o facto – hoje confirmado – de ter havido falta de comunicação e esse ter sido um problema nos fogos que atingiram o Centro do País, problema que pode pôr-se também em caso de inundações ou de tremores de terra, ponha à consideração o seguinte: a importância das rádios locais!
            Em meu entender, todas as pessoas de uma região deveriam saber o contacto da ‘sua’ rádio local, porque será ela que, em tais emergências, por melhor conhecer o terreno, pode dar as informações mais ajustadas.
            Para isso, há que providenciar dois equipamentos, pelo facto de, amiúde, faltar a electricidade e as antenas de telecomunicações também avariarem: urge fazer uma campanha para que haja em cada casa um pequeno transístor (que funciona a pilhas, como se sabe) e que cada emissor de rádio local seja provido de um pequeno gerador autónomo de energia eléctrica, para poder continuar a funcionar, mesmo quando a rede eléctrica for abaixo.
            Assim as rádios locais cumpririam com maior eficácia a sua função de criar comunidade e fomentar a necessária solidariedade entre as populações que servem.
                                                                       
                                                                        José d’Encarnação

sábado, 24 de junho de 2017

As eternas e sugestivas rivalidades!

Entre povoações vizinhas
            Rivalidades entre povoações vizinhas sempre as houve.
            Poderíamos encher páginas e páginas a contá-las de Norte a Sul do País.
            Janes criou, em 1938, a Sociedade de Instrução e Recreio de Janes e Malveira «com o objectivo de instruir, beneficiar e recrear os associados»? Pois em 15 de Fevereiro de 1941 funda-se, do outro lado da estrada, a Sociedade Familiar e Recreativa da Malveira da Serra. Janes prepara corso carnavalesco? Malveira também tem! Faro tem um clube de futebol a preceito? Olhão também tem de ter! E a rivalidade entre os dois clubes foi sempre acirrada. Como entre o Benfica e o Sporting. Como entre Guimarães e Vizela… Tantos, tantos!...

Entre Cascais e Lisboa
            Cascais também sempre quis rivalizar com Lisboa. Ou melhor, Lisboa sempre quis rivalizar com Cascais, ciumenta desde que os reis começaram a vir aqui passar férias e, com eles, a burguesia e a alta finança. Um espinho atravessado, desde finais do século passado, na garganta dos mandantes alfacinhas…
            No entanto, como, apesar de tudo, Lisboa é cidade e é a capital e a sede oficial do governo (ainda que muitos governantes habitem em Cascais, essa é que é essa!...), manda quem pode e, por exemplo, quando se viu que o turismo, em que Cascais foi pioneiro (e esse palmarés venha o primeiro a negá-lo!), era fecunda fonte de riqueza, logo Lisboa pensou em liquidar a Junta de Turismo da Costa do Estoril e procurar também obter «mais adequada» partilha dos dinheiros provenientes da concessão da chamada Zona de Jogo… E ‘atirou’ ali para as bandas do Ribatejo a sede de decisão da política turística para estas paragens. Se já se viu
            Eu até nem sei muito bem onde é; mas Junta de Turismo acabou e as questões turísticas do concelho de Cascais – se os presidentes do Município se não impuserem – vão continuar a ser decididas lá longe, por quem, eventualmente, até nem sabe que há grutas pré-históricas em Alapraia, um dos ai-jesus da Junta de Turismo durante os (já longínquos) anos 60.
            Pouco antes do 25 de Abril, houve, até, discussão acalorada: que Costa do Estoril não tinha sentido como designação: o que seria bom era Costa de Lisboa e até os arautos dessa teoria se apressaram a mandar fazer milhares de pastas com a nova designação, pastas de que – pecador que confessa é perdoado… – acabei por ser eu o único beneficiário, porque as logrei recuperar do lixo!...

Universidade – uma eterna rivalidade cascalense
            Pronto, as rivalidades do hóquei – de mui saudosa memória (olá, Padre Miguel!...) – também se esvaíram, a partir do momento em que esse deixou de ser, na «linha», o desporto de eleição do Cascais, do Parede, do Carcavelos, da Juventude Salesiana…
            Agora, a rivalidade é outra: uma Universidade! Cascais não é verdadeiramente Cascais se não tiver uma Universidade! Pode ser de Saúde, de Tecnologia de Ponta, de Astronáutica, de… qualquer coisa! Mas Universidade tem de ter, dê por onde der!
            Nunca me meteria, confesso, a fazer uma crónica sobre este tema, eu, que sou catedrático aposentado de Coimbra, se – ao arrumar os meus papéis – me não tivesse caído de uma das pastas documentação curiosa, que passo a referir.
            Em carta que me foi dirigida, na qualidade (então) de presidente da Associação Cultural de Cascais, o Prof. Doutor Afonso de Barros, na sua qualidade de «presidente da Comissão Instaladora» da Universidade de Cascais, convidava-me a estar presente na sessão de apresentação desse projecto, a realizar no Dia do Município de 1994, 7 de Junho.
            Promotora do projecto? A «EIA – Ensino, Investigação e Administração, S. A., constituída por Professores Universitários, Investigadores Científicos e Quadros Superiores, associados ao Grupo Caixa Geral de Depósitos, ao Montepio Geral ao Entreposto, e ao Banco Português de Investimento», «à Coba e à Ensinus, com a participação da Câmara Municipal de Cascais».
            Propósito: «na fase inicial, formar licenciados em Gestão de Sistemas e Informação, Gestão e Estratégia, Gestão Territorial e Urbana e Gestão do Ambiente», a começar já no ano lectivo de 1994-1995.
            Da Comissão Instaladora, presidida, como se escreveu, pelo Prof. Catedrático Afonso de Barros, faziam parte 9 personalidades, entre as quais Ana Benavente, João Paulo Monteiro (catedrático), João de Pina Cabral (investigador principal) e Joaquim Pina Moura (em representação da C. M. Cascais). Entre os consultores científicos, chamaram-me a atenção os nomes de João Ferreira do Amaral (do ISEG) e João Salgueiro (Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa), que seria o Presidente da Assembleia Geral, tendo como vice-presidente o Dr. Artur Santos Silva.
            E pronto. Está a notícia feita.
            Quer o leitor nomes mais sonantes? Quer cursos mais ajustados às necessidades do dia-a-dia cascalense do que «Gestão Territorial e Urbana» ou «Gestão do Ambiente»? Não, não é possível.
            ‒ Então e cadê a «Universidade de Cascais»?
            ‒ Sumiu!
            ‒ E essa tal de EIA sumiu também?
            ‒ Ná, não sumiu! Ponha o amigo «E. I. A. – Ensino, Investigação e Administração» no Google e fica a saber da marosca (passe o termo!). É que, neste caso, outra rivalidade funcionou: a de Oeiras!
            Pois é! Não houve Universidade de Cascais, mas houve a Universidade Atlântica, sediada em Barcarena, nas instalações da antiga Fábrica da Pólvora! Cascais, à falta de trunfos, perdeu a rodada!...
            Vencido, mas não convencido! E «Universidade» continua a ser palavra saborosa que mui frequentemente se badala. A ‘internacionalíssima’ a instalar em Carcavelos, por exemplo. E até já se aventou que as decrépitas estruturas do antigo Hospital dos Condes de Castro Guimarães, no coração da vila, poderiam vir a anichar pólo de Medicina da Universidade Católica!...
            Bem fez a Delegação da Cruz Vermelha: nada de universidades! Uma Academia Sénior é o que é! E estão-lhe a abarrotar ambas as secções. Qualquer dia, tiram-lhe o Sénior e põem «Academia da Experiência» ou, mais ao jeito do facebook, «Academia da Partilha dos Saberes». Nesse domínio, as rivalidades não contam: dão ainda mais ânimo a continuar!

                                                                       José d’Encarnação

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A ciência da espera

            A aeronave saiu da zona de embarque passavam já minutos após a hora anunciada para o início do voo. Entrou na fila de espera. Descia um avião ou dois e outro se fazia à pista. Os motores começaram a acelerar forte para a descolagem 27 minutos após a partida programada. Certamente recuperará no ar do atraso sofrido, pensei eu; mas decerto também no aeroporto de chegada haverá fila (estão estipulados horários precisos para o movimento de chegadas e partidas) e poderemos chegar pontualmente ou não. Também isso pouco interessa e não serei eu que vou ter com o comandante a dizer-lhe que vá mais depressa ou mais devagar. Para já, abaixo de nós um manto compacto de nuvens brancas, que não nos deixam ver o chão, por cima, é o azul do céu límpido. Ficou para trás a foz do Tejo, cheia de línguas de terra, alagadas umas, cultivadas (ao que parece) outras e até numa há o que eu chamaria de monte, se não estivesse em pleno por cima do Ribatejo e não no Alentejo.
            E dei comigo a meditar: são imprescindíveis, por intrínsecas razões de segurança, estas esperas na pista do aeroporto. Ai de nós se as não houvera! Mas, no dia-a-dia, não tem a espera uma conotação sempre negativa, prenhe amiúde de mui escusada ansiedade? Espera-se pelo autocarro, que vem atrasado; espera-se pela consulta médica, que raramente é a horas e que, aliás, já foi marcada há muito. Espera a mãe pelo nascimento do filho: após os sete meses, se não antes, outro não é o pensamento habitual: se virá bem, se será prematuro, se dá pontapés simpáticos…
            Pronto. Afinal, precisei de chegar aos 72, para me consciencializar que a espera é uma ciência; desesperar não adianta e, também aqui, a serenidade deve imperar.
Neves... eternas? Ou também elas,
tranquilamente, à espera de um sol
mais quente, que, um dia, virá?...
            A 20 de Julho de 1969, Neil Armstrong baptizou a região da Lua onde pousou com o nome de Mar da Tranquilidade. Acho que fez muito bem e, se não foi sua intenção ensinar-nos que lá, a quase 400 000 quilómetros da Terra, é a Tranquilidade que impera, bem poderia tê-lo dito e, sobretudo, para nos ajudar a ter por lema a vontade de bem saborear o presente, o único que nos é proporcionado para viver.
Assim, eu, agora, com duas horas e meia pela frente. Sim, uma já passou e nem dei por isso! Envolto no mecânico e ‒ felizmente! ‒ monótono trabalhar dos reactores, vejo a neve a rendilhar de brancura as agrestes e inacessíveis reentrâncias dos Pirinéus. Também ela espera, paciente, que o Sol caloroso a venha afagar. Será um beijo mortal; mas é boa a imagem da vida! Que a espera, afinal, acaba por ser vivificante!

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 710, 15 de Junho de 2017, p. 11.

 

Uma evocação do Prof. Marques de Almeida (1936-2017)

             Poderá parecer estranho que seja um catedrático de História da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra a ousar fazer aqui uma evocação da vida e da obra do Prof. António Augusto Marques de Almeida, que ontem (15 de Abril) nos deixou e cujas exéquias vão realizar-se daqui a escassas horas. É que a sua personalidade me marcou profundamente no pouco tempo que tive para privar com ele.
            Participámos ambos, por nomeação ministerial, no ano lectivo de 2000-2001, na Comissão de Avaliação Externa dos Cursos de História, criada no seio da CNAVES. Couberam-me as funções de vice-presidente e, nessa condição, presidi às Subcomissões de Arqueologia e de História da Arte. Tínhamos, porém, muitas reuniões em comum, foi esse um ano cheio, como alguns recordarão, e Marques de Almeida exercia então as funções de vice-reitor da Universidade de Lisboa. E fiquei, desde o primeiro momento, amigo de Marques de Almeida, pela sua bonomia, ponderação, seu perspicaz mas compreensível espírito crítico. Creio que – também graças a todos os seus valiosos contributos – fizemos um bom trabalho e, desde então, qualquer encontro com Marques de Almeida era uma festa, pela Amizade que nos unia, pelas recordações interessantes que esse convívio na Comissão de Avaliação Externa nos proporcionara.
            Perdi, de facto, um Amigo. E a comunidade científica portuguesa recordará nele, estou certo, o investigador probo da época dos Descobrimentos, nomeadamente no que se refere às transacções e às motivações económicas.
            O Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa publicou, em 2006, por ocasião da sua jubilação (em Maio de 2005), o livro Rumos e Escrita da História (Estudos em Homenagem a A. A. Marques de Almeida), que teve a coordenação da Prof.ª Maria de Fátima Reis, uma publicação de Edições Colibri. Para ele, obviamente, remeto, porque nele se terá uma ideia mais precisa do que foi o seu labor. Aliás, salienta-se, na apresentação da obra:
            «Em vinte e seis anos de persistente labor, António Marques de Almeida desenvolveu uma actividade intensa e fecunda na sua Escola, como docente, investigador e administrador É indelével a forma como transmitiu a sucessivas gerações de estudantes, de licenciatura, pós-graduação, mestrado e doutoramento, as exigências de matematização do real e o rigor da metodologia científica, seja em cadeiras de Teoria e Método, ou em disciplinas da sua especialidade, História Moderna (Economia e Sociedade) e História da Ciência».
            Permita-se-me, porém, que cite alguns dos seus trabalhos:
            Os livros de aritmética (1519-1679): subsídios para a história da mentalidade moderna em Portugal, Universidade de Lisboa, 1989.
           Capitais e Capitalistas no Comércio da Especiaria. O eixo Lisboa ‒ Antuérpia (1501-1549): Aproximação a um Estudo de Geofinança. Edições Cosmos, Abril de 1993.
           Aritmética como descrição do real, 1519-1679: contributos para a formação da mentalidade moderna em Portugal, 2 vols., Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994..
            – «A matemática em Portugal (séculos XV-XVI) e as suas fontes italianas: a difusão do paradigma», Arquipélago. História, 2ª série, vol. 1, nº 1 (1995): 105-121.
            Dicionário Histórico dos Sefarditas Portugueses: Corpo Prosopográfico de Mercadores e Gente de trato. Lisboa, Campo da Comunicação, 2009 (que teve tradução inglesa: Historical Dictionary on Portuguese Sephardim: A prosopography of men of culture and science).
            E não resisto a transcrever, com a devida vénia, parte do testemunho que o Doutor Santiago Macias, presidente da Câmara de Moura, escreve hoje no seu blogue “Avenida da Salúquia 34”:
            «Foi meu professor de Matemática para as Ciências Sociais e Humanas no ano lectivo de 1981/82. A primeira aula foi no dia 7 de Dezembro, na sala 7. Recordo o sorriso meio irónico com que entrou na sala e deparou com a turma, silenciosa e aterrorizada. Matemática?? A cadeira era obrigatória. Com sensibilidade e inteligência, o Prof. Marques de Almeida levou a "coisa" por outros caminhos. Interessou-nos por Bento de Jesus Caraça, pelamatematização do real, pela visão qualitativa e não quantitativa. As aulas eram espaços de liberdade e Marques de Almeida obrigava-nos a improvisar. Uma das componentes obrigatórias era a "apresentação oral". Tínhamos de falar durante 10 ou 15 minutos sobre um tema à nossa escolha. Optei pelo cinema português e pela visão que os estrangeiros colhiam de Portugal através dos filmes. Com aquele pequeno exercício, Marques de Almeida queria que nos disciplinássemos e que puséssemos o cérebro a trabalhar cronometricamente. Lembrei-me do seu austero "tens 10 minutos para terminar" muitas vezes ao longo da vida. Orientou-me nas leituras, obrigou-me a ler o Capitalismo monárquico português, de Manuel Nunes Dias, fez-me trabalhar sobre a feitoria portuguesa de Antuérpia e, sobretudo, ajudou-me. […]
            Coincidências e ironias do destino: doutorei-me, em Lyon, no amphithéâtre Benveniste. O nome de judeu que motivou a criação pela família Benveniste, em 1996, de uma cátedra na Universidade de Lisboa. Primeiro director dessa cátedra? Marques de Almeida.»
            Que descanse, pois, em paz, quem tanto nos legou – pelo saber e pelo exemplo!

                                                                       José d’Encarnação

Durval Moreirinhas: a evocação necessária

Durval Moreirinhas
Foto de Rui Melo Pato
            A notícia já perpassou pela Comunicação Social e já foram tecidos todos os comentários: no passado dia 12, morreu aos 80 anos, em Lisboa, acometido de enfarte na via pública O músico e compositor Durval Moreirinhas «considerado o mais internacional dos violas de Coimbra». Contudo, não me era possível deixar sem uma palavra este passamento, porque Durval Moreirinhas muitas vezes esteve connosco em Cascais, nomeadamente com Carlos Carranca, nos espectáculos que este organizava. E, por outro lado, praticamente não havia sessão em que se evocasse o fado de Coimbra em que o nome de Durval Moreirinhas não surgisse.
            Durval Araújo Cerqueira Moreirinhas nasceu em Celorico de Basto, a 11 de Abril de 1937 e é «considerado o decano dos intérpretes de viola do Fado de Coimbra». Acompanhou, de facto, como alguém escreveu «as mais talentosas e conhecidas vozes do fado e da canção de Coimbra, sobretudo, mas também de Lisboa».
            «Era, talvez, neste momento, o decano dos intérpretes de viola do fado de Coimbra e, certamente, aquele que mais acompanhamentos fez em discos e em espectáculos no país e no estrangeiro», escreveu
Rui Melo Pato, que acrescentou:
            «Não há guitarrista quase nenhum e cantor, creio que também não, que, nos últimos 60 anos, não tivesse sentido o rigor e a qualidade dos seus acompanhamentos».
            Que descanse em paz! Fica-nos a saudade dos bons momentos poéticos que nos proporcionou, levados na melodia ímpar dos seus acordes!                                  
                                                                                  José d’Encarnação

 

Daniela Mercury vai aquecer o Salão Preto e Prata

             E, ao que parece – e bem! –, o Salão Preto e Prata do Casino Estoril volta a constar do périplo de artistas de renome internacional. Confesso, já estávamos com saudades! Tudo era só Meo Arena e Coliseus, quando o Casino Estoril sempre primara por trazer a Portugal os maiores vultos da música nacional e internacional.
Daniela pisa, pela 1ª vez,
o palco do Salão Preto e Prata
            Bem-vinda, pois, será a azougada Daniela Mercury, que, embora estejamos em época de calor, certamente vai irradiar um outro calor no ambiente aconchegado do Salão Preto e Prata, que lhe não regateará aplausos e que a vai acompanhar, estou certo, nos sacudidos ritmos a que nos habituou.
            Mas uma coisa é ver na televisão ou ouvir na rádio, outra é ver ao vivo num palco que estará apetrechado a preceito para fazer desta noite do próximo dia 3 (a primeira 2ª feira de Julho), a partir das 22 horas, uma noite memorável, como a das grandes estreias – porque, acentue-se, por incrível que pareça, Daniela Mercury ainda não pisara aquele palco! E garanto que vai sair deliciada com o público – “Quero ver todo o mundo sambar!…” – e o público deliciado com ela.
            Como se escreve na ‘informação à imprensa’, «a cantora baiana, de São Salvador, promete uma actuação repleta de energia, cor, dança e muita alegria», ou não fosse ela baiana! “Nobre Vagabundo”, “O Canto da Cidade” ou “Pérola Negra” serão, sem dúvida, temas com que saberá electrizar o público.
            «Daniela Mercury tem a revolução e a reinvenção no sangue», conclui o responsável pelo Gabinete de Imprensa. Estamos completamente de acordo, Luís!

                                                                                  José d’Encarnação

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Brisas do Sul completou 20 anos!...

             Luís Gerardo Viegas Viegas, director do jornal Brisas do Sul, que se publica em Olhão, congratulou-se, em texto publicado no facebook, a 29 de Maio último, com o facto de o seu «jornal regional de defesa dos interesses e valores algarvios» ter completado a bonita idade de 20 anos, o que, no quadro da imprensa local e regional, é digno de nota. Como jornalista de âmbito regional há mais de 50 anos, não posso deixar de me congratular, tanto mais que chegara a soar a notícia de que Brisas do Sul dera por finda a sua missão, o que não nos admiraria, atendendo à falta de interesse e mesmo, amiúde, de oposição, que a imprensa local é alvo por parte das entidades públicas e privadas.
            Adérito Vaz chegou mesmo, na edição de Março do nosso jornal, a manifestar o seu pesar, porque – se tal fosse verdade – esse poderia ser mais um passo «a acelerar a diminuição da imprensa regional, que está cada vez mais reduzida».
            Acentuou Adérito Vaz o que foi o esplendor, nesse domínio, da década de 80, em que, através da imprensa local e regional, se fomentou comunidade, se estreitaram laços entre os locais e os emigrantes, por exemplo, que anseiam – tal como os soldados em África ansiavam – pela chegada do jornalzinho que lhes trazia notícias da sua terra e dos seus vizinhos. Podia o seu conteúdo ser pobre, assinala A. Vaz, podiam alguns chamar-lhes pasquins, o certo é que a função de imprensa local e regional assumia – e assume, enquanto deixarem alguns perdurar! – um papel fundamental na vida de todos nós. Também as rádios locais vão fechando. E lembro-me de ter estado no Rádio Clube de Monsanto, cujo director, o meu amigo Prof. Joaquim Manuel da Fonseca, me dizer «Veja lá se pelas Lisboas me consegue arranjar alguém que venha tomar conta disto, eu vendo, que já estou cansado, é toda uma vida…».
            Tempo houve em que os autarcas compreendiam o significado da imprensa local, como veículo das necessidades da população que os elegeram. Cedo passaram, porém, a querer instrumentalizá-la e a fazer todos os possíveis para a aniquilar, caso não fosse da sua ‘cor’ política. Tristes autarcas. Triste país!...
            Brisas do Sul soube resistir; Noticias de S. Braz também! E assim vamos defendendo, «com sangue, suor e lágrimas», os interesses e os valores algarvios!

                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel] nº 247, 20-06-2017, p. 11.

domingo, 18 de junho de 2017

Atanchar os dentes

             – Bolas! O diacho do cão atanchou-me bem os dentes nas canelas, o alma do diabo! Se eu deixasse, até os ossos ele me tarrincava! Cão político!... Lá lhe consegui dar uma trolitada valente e lá foi ele calhincando por i fora!
            Pois! Exemplos, Ti Afonso, exemplos!...
            Há muito que não ouvia qualquer dos termos e valerá a pena ver bem que significam e donde vêm. Vamos primeiro ao atanchar e, de caminho, tarrincamos também. Calhincar não queremos – até porque deve ser vocábulo onomatopaico, que o canito deve ter saído dali «caim», «caim», «caim!»… de rabinho entre as pernas… Também do adjectivo «político», como se o bicho defendesse o seu território, os seus interesses, com unhas e dentes… bem, essa é outra conversa e deixemos o velhote lá na sua, que porventura poderá ser a de muitos. Adiante!
            Fixemo-nos, então, no atanchar. O «a» inicial, já se sabe, é como no «amandar», um «a» que a gente põe para dar mais força; chama-se, em gramática (ou chamava-se…), um prefixo, este de uso popular, um «a» protético! Agora imagine-se que «tanchar» vem do latim «plantare», que deu, no português medieval, «chantar». E depois? O povo gosta muito de simplificar as palavras, um tudo-nada troca-tintas (diríamos…); e chantar custava muito a dizer, vamos lá trocar as sílabas – e deu tanchar (chama-se a isto uma… metátese!). Tanchão é, por exemplo, a estaca de árvore que se atancha no chão para pegar!
            Tarrincar, por seu turno, corresponde, claro, na voz do povo, a trincar. Mas, aqui para nós, em relação aos tais de que falávamos, não apetece mesmo dizer que eles nos tarrincam os ossos e até nos sugam o tutano?!..
                                                           José d’Encarnação

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 221-222, Junho-Julho de 2017, p. 10.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

“Egoísta” duplamente premiada!

É o seu 80º galardão!
            A revista Egoísta, propriedade da Estoril Sol, arrecadou mais dois grandes prémios na edição de 2017 do Papies, em cerimónia que decorreu, no passado dia 6 de Junho, no Salão Preto e Prata do Casino Estoril. Com esta dupla distinçãoreforça, assim, o estatuto de revista portuguesa mais galardoada de sempre, registando 80 prémios, desde o seu lançamento em 2000.
            Na 26ª edição deste conceituado certame, que reuniu os melhores trabalhos de comunicação gráfica, a “Egoísta” foi galardoada na “Categoria de Revista”, pela edição nº 58 inspirada na cidade de “Lisboa” e pela edição nº 60 dedicada à “Política”.
            Recorde-se que a revista ocupa, habitualmente, um lugar de destaque nas cerimónias de entrega dos Prémios Papies, tendo já recebido, em anos anteriores, múltiplos galardões em diferentes categorias.
            Lançada há 17 anos, ganhou rapidamente uma importante dimensão internacional. Dirigida por Mário Assis Ferreira e tendo como editora Patrícia Reis, esta singular publicação da Estoril Sol tem, pois, um invejável e inigualável palmarés, nomeadamente tendo em conta a sua excelência gráfica e de conteúdos.
Um edifício em ruínas?
            A edição nº 60 merece, na realidade, na continuidade da excelência das demais, uma atenção redobrada pela enorme mensagem que transmite! O tema é «Pro Patria» e ao editorial deu Assis Ferreira o sugestivo título de «Política e Ilusão». Por outro lado, abre – imagine-se! – com um enorme ‘desdobrável’ a mostrar o edifício da Assembleia da República em ruínas! Sintomático e … esplendoroso num fino sentido crítico que urge apreciar e que nos deveria fazer reflectir (os que ainda têm capacidade para isso!...).
            Parabéns a Assis Ferreira e a toda a sua extraordinária equipa!

                                                                       José d’Encarnação

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Isabel Pereira, museóloga

              Mão amiga me fez chegar esta foto que capta um instantâneo da fala do Dr. António Nabais, Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Museologia, em que enaltece os méritos da Dra. Isabel Pereira, galardoada como ‘Personalidade do Ano’ no âmbito dos prémios anualmente atribuídos por aquela associação criada em 1965 e que tem por objectivo pugnar pela defesa da Museologia em Portugal.
              A sessão decorreu na tarde do passado dia 9, no Museu Soares dos Reis (Porto).
              Isabel Pereira começou a notabilizar-se como numismata, integrada na equipa luso-francesa que escavou a cidade romana de Conímbriga, de cujo Museu Monográfico começou por ser conservadora. Deve-se-lhe o volume III das Fouilles de Conimbriga, Les Monnaies (Paris, 1974), que assinou com Jean-Pierre Bost e Jean Hiernard, obra que foi então premiada internacionalmente como notável exemplo de estudo numismático.
              De Conimbriga foi para a Figueira da Foz, onde se iniciava então a construção de raiz do Museu Santos Rocha, com o apoio da Fundação Gulbenkian, numa sequência do que se pusera em prática no Museu Gulbenkian em Lisboa. Foi Isabel Pereira a grande obreira da organização do empreendimento, enquanto mantinha a sua outra ‘predilecção’, a Arqueologia (aliás, o museu tinha importante colecção legada pelo seu patrono), e deve-se-lhe, por exemplo, o conhecimento que hoje se tem do importante e mui singular povoado de Santa Olaia, um dos primeiros a dar conta da presença de Fenícios em território nacional.
              Da Figueira seguiu para o Museu de Santa Joana Princesa, em Aveiro, onde também procedeu à reorganização das colecções e fez obra de mérito. Aí a colheu a aposentação, que, porém, não correspondeu a descanso. Assim, deve-se-lhe o monumental volume Moedas Romanas do Museu Municipal de Santiago do Cacém, Câmara Municipal de Santiago do Cacém, 2007, em que teve o precioso apoio do marido, Teófilo Silva. A que se seguiu As Moedas. Villa Romana do Rabaçal (Penela – Portugal). 25 Anos de Trabalhos Arqueológicos (1984-2010), Câmara Municipal de Penela, 2012, também com a colaboração de Teófilo Silva e de Miguel Pessoa (o arqueólogo do sítio). Sei que têm entre mãos a preparação do catálogo das moedas do Museu de Faro, que apenas circunstancialismos da mais diversa ordem têm impedido de ver a luz do dia.
         Sirvam estas singelas linhas para demonstrar quão ajustado foi o prémio ora concedido, porque Isabel Pereira reúne em si os dotes de uma verdadeira museóloga: à direcção dos museus soube mui sabiamente aliar o trabalho científico, em que é mui reputada especialista. Comentou quem me enviou a foto:
        «Foi muito emotivo, muito bonito e a Dra. Isabel estava muito calma e assertiva. As suas palavras foram belíssimas também.»
           Honra ao mérito!
          Congratulo-me vivamente! Inclusive por contar a Isabel e o Teófilo entre os meus grandes amigos. 
 
                                              José d’Encarnação

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Um prémio para a história de Cascais

            No final da tarde do dia do município, 7 de Junho, foi dado a conhecer, no pátio da Casa Sommer, o resultado do concurso bienal lançado pelo Município: um desafio a que se apresentasse o resultado de investigações levadas a efeito sobre a multissecular história cascalense.
            Havia um sol radioso, bom pretexto para o Município nos obsequiar com um chapéu de abas largas, como de ceifeira alentejana ou, se mais revirado, réplica dos usados por outros heróis, os do Far-West, que fizeram as delícias da nossa juventude.
            Tem o prémio Ferreira de Andrade como «patrono», na medida em que se deve a este publicista. Perdoar-se-me-á se assim o classifico, porque, na verdade, foi essa a sua principal actividade, embora aqui o referenciemos pelo monumental e inesgotável volume Cascais – Vila da Corte (Seis Séculos de História), publicado em 1964 e cuja versão digital está hoje disponível, assim como o está o livro dos seus índices e suplemento (1964-1972), editado em 1975, auxiliar indispensável (que me seja perdoada a aparente presunção) para a sua consulta proveitosa.
            Explico-me.
            Embora tenha procurado seguir, tanto quanto possível, uma ordem cronológica, Ferreira de Andrade não hesitou em, sempre que a oportunidade surgia e o documento compulsado o facultava, ‘esquecer’ a cronologia e dar conta dos elementos encontrados, mesmo que fossem doutro período; por isso, o livro com os vários índices acaba por fornecer a ordem que até a inexistência dum índice geral requeria.
            Faz-se a história com documentos – escritos ou materiais (edifícios, objectos, paisagens…). Cumpre construir, porém, uma narrativa em que esses elementos – mercê da maior ou menor experiência do historiador – se devem entrelaçar. Não há uma história local desgarrada da história regional; a região não está isolada do País; o País não está isolado do Mundo. E cada vez mais assim é!
            Louve-se, por esse motivo, o meticuloso trabalho que, sob a mui proficiente orientação do Doutor João Miguel Henriques, ora é possível concretizar nas novas instalações do Arquivo Municipal, dada a sistemática recolha e tratamento dos fundos arquivísticos de instituições e até, assaz louvavelmente, de pessoas singulares. Ainda outro dia me contaram de pastas de arquivo e de livros atirados para junto de um ecoponto e que assim levaram descaminho; podiam não ter qualquer interesse; mas, hoje, que temos protocolos com bibliotecas das nossas ex-colónias, sedentas de bibliografia, deitar fora livros em bom estado quase se poderia classificar de crime. E tremo ao recordar que do lixo se recuperou boa parte do espólio de Michel Giacometti!...
            Assim, alguns dos cinco trabalhos agora apreciados pelo júri – pelo significativo acervo de documentação cuidadosamente apresentado – poderão vir a servir de base a outros estudos em que a integração na história da sua época, a nível mais global, venha a ser concretizada.
            Significativa foi também, reatando o que atrás se referiu, a inauguração, que se seguiu, de uma exposição sobre a obra do arquitecto Silva Júnior, fruto do ajustado tratamento que teve a doação feita ao Município de importante espólio deste consagrado artista por parte da quase secular Casa do Alentejo, de Lisboa. De resto, a vice-presidente da Direcção da Casa teve oportunidade de nos guiar numa visita virtual aos recantos deste magnífico palácio lisboeta que vale, de facto, a pena visitar, até pelas constantes iniciativas de âmbito cultural que lá são levadas a efeito.
Jorge Freire
            Como foi noticiado, o 1º prémio do concurso foi concedido ao mestre Jorge Freire, que apresentou a sua dissertação de mestrado, fruto do muito trabalho que tem concretizado, em estreita colaboração com o Museu do Mar, no reconhecimento e protecção da Paisagem Cultural Marítima de Cascais. À tese de doutoramento de Guilherme Cardoso, que exaustiva e ordenadamente dá conta dos resultados obtidos nas escavações da villa romana de Freiria, na impossibilidade de haver prémios ex-aequo, foi concedida uma menção honrosa. A ambos, o meu abraço de parabéns, além do mais porque foram ambos meus estudantes – e tenho orgulho natural nisso!

 José d’Encarnação
 
           Publicado em Costa do Sol Jornal [Cascais], nº 191, 14-06-2017, p. 6.
                                                         
 
Jorge Freire em plena actividade de arqueologia subaquática
 

terça-feira, 13 de junho de 2017

Há sempre um bom pretexto para poetar!

             Não haverá português algum – ou até ser humano mais ou menos culto – que não tenha ousado, um dia, fazer versos, alinhar umas rimas, a pretexto de um baptizado, de um namoro, de um convívio de amigos ou mesmo de chalaça em relação a alguém que, no grupo, por qualquer motivo se haja distinguido.
            Pois, ao remexer nos meus papéis, deparei com um caderno de folhas soltas, de papel pardo. 16 tinham cada uma um poema; a última era a ficha técnica, onde se fica a saber que – sob o título «Não há como beber uma golada para a frase ficar mais inspirada» – a Adega Cooperativa de Mangualde promovera, em 1992, um concurso de poesias alusivas ao vinho. José Costa e Virgílio Loureiro seleccionaram e organizaram a antologia, José Tavares ilustrou e a Vinidão editou, em Outubro de 1993, 1500 exemplares.
            Diz-se na badana que, com este caderno, a Associação dos Vitivinicultores Engarrafadores da Região Demarcada do Dão – VINIDÃO pretendia «iniciar uma homenagem aos poetas populares deste País, cuja sensibilidade está profundamente marcada, há séculos, pela nobreza de um produto de eleição como é o vinho».
            A iniciativa não terá tido seguimento; mas ficou este testemunho da inspiração de poetas de Viseu, Nelas, Mangualde, sempre em louvor do precioso néctar e das terras que o produzem:
             «Até no céu os Santinhos / disso tenho convicção! Tomariam os seus copinhos / Se lá houvesse vinho “Dão” – proclama José Lopes, sem hesitar.
            E se as recomendações para que se beba com moderação não faltam, José Amaral também não hesita em explicar algo que poucos de nós saberão:
 
            De Vilar Seco saiu
            Um homem com um papel
            Levava lá escrito
            A qualidade do moscatel
 
            Em Palmela se instalou
            José Maria da Fonseca
            No papel levava escrito
            A qualidade da cepa.

            Com adequadas ilustrações, é um caderno de que porventura se terão perdido quase todos os exemplares. O meu vou oferecê-lo ao Museu Ferreira de Castro, de Sintra, para que conste no seu espólio e assim possa ser apreciado por quem o desejar e, porventura, por quem, um dia, nele se inspire e queira lançar mão a idêntica iniciativa. Em prol do vinho ou doutro dos nossos produtos. Mas sempre em prol da Poesia!
                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 13 de Junho de 2017:

Rapsódia de… murros no estômago! (2)

             Acho que não pode haver um primeiro sem que, pelo menos, um segundo se apresente. Assim, recordo que, na passada edição, eu fora ao baú dos «assuntos pendentes» e decidira retirar de lá os primeiros murros – e aqui vão agora alguns mais.
            2 – A carta de João Tordo ao pai Fernando, publicada a 19 de Fevereiro de 2014, donde recorto:
            «Os nossos governantes têm-se preparado para anunciar, contentíssimos, que a crise acabou, esquecendo-se de dizer tudo o que acabou com ela. A primeira coisa foi a cultura, que é o património de um país. A segunda foi a felicidade, que está ausente dos rostos de quem anda na rua todos os dias. A terceira foi a esperança. E a quarta foi o meu pai […].
            3 – Entretanto, na terceira semana de Maio, começou a falar-se por aí na hipótese de proibir os jovens de emigrar. E dei comigo a exclamar alto:
Partir, partir, partir!...
            «Olha! Acordaram agora! Gente dorminhoca, esta! Então não repararam já, há muito, que não há família portuguesa que não tenha um dos seus jovens a trabalhar no estrangeiro? Escrevi «trabalhar», não «estudar» – para não se confundir com a maravilha do Programa ERASMUS, ora a comemorar os seus 30 anos de mui frutuoso funcionamento. Proibir? Voltamos ao Antigo Regime, é? Não seria preferível garantir que tudo se iria fazer para que os jovens recém-licenciados e os outros ficassem por cá?».
            Nunca pensara eu que tal pudesse acontecer comigo; mas confesso que já não sei em quantos países tenho agora familiares: no Reino Unido, em França, no Qatar, no Canadá, no Brasil, na Austrália, na Islândia, na Escócia, na Suécia… Eu sei lá!
            4 – Termino, sem comentários. Escreveu Pedro Afonso, psiquiatra no Hospital Júlio de Matos (jornal Público, 19-09-2013):
            «Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos. […] Interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas, porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas, esquecendo que a sociedade é feita de pessoas».

                                                           José d’Encarnação          

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 709, 1 de Junho de 2017, p. 11.

domingo, 4 de junho de 2017

O perfil do candidato autárquico – Considerações que datam de Abril de 1993!

                Ao proceder a arrumações dos papéis que, ao longo dos anos, vamos acumulando em pastas, na ideia de… «quando eu me aposentar, vou tratar disto», deparei esta semana com o recorte da pág. 8 do Jornal Notícia de 1 de Abril de 1993. Foi um órgão da imprensa local cascalense, dirigido por Joaquim Baraona. A várias personalidades da vila se puseram duas questões:
            ‒ Qual o perfil que traçava para o candidato ideal para a Câmara Municipal de Cascais?
            ‒ Dentro dessa linha indicava dois ou três nomes que em seu entender poderiam vir a ser bons presidentes de Câmara?
            Fui eu um dos interpelados e, ao reler o que então respondi, pareceu-me oportuno partilhar (como hoje se diz) ipsis verbis essas minhas opiniões – que, por sinal, mantenho, apesar de todos estes anos passados.

Paços do Concelho de Cascais
            Em funções jornalísticas, tive ensejo de contactar com todos os presidentes da Câmara Municipal de Cascais, desde os tempos do saudoso Engº António de Azevedo Coutinho (1962-1969), a quem se deve, em grande parte, o enorme surto urbanístico que Cascais então conheceu. Mas também me recordo ainda, da adolescência, de figuras como a de Raposo Pessoa e Vítor Novais Gonçalves. Após o 25 de Abril, também por empenho jornalístico, acompanhei de perto, durante vários anos, a actividade municipal, nomeadamente através duma presença assídua às sessões camarárias, então públicas todas elas (ou quase). Carlos Rosa e Helena Roseta foram também, enquanto presidentes, interlocutores afáveis, atenciosos e atentos.
            Estas singelas reflexões brotam, pois, desse intenso “convívio” e do espectáculo que se lhe seguiu – a que tenho assistido como cidadão, como candidato (que fui) à Assembleia Municipal, como jornalista e historiador da cultura e, também como responsável universitário por um curso de pós-graduação, curso onde, aliás, lecciono Comunicação Social.
            É unanimemente reconhecido que não é nada fácil a Câmara Municipal de Cascais. Poderá ser trampolim para outros voos políticos; mas não tem sido fácil. É uma Câmara grande, com muita gente. Uma Câmara supostamente rica e onde, supostamente também, se podem fazer grandes negócios. Não invejo, por isso, quem se deseje candidatar, porque será, à partida, tarefa difícil convencer o eleitorado e os seus funcionários que está ali para servir o bem comum e não os seus interesses ou os interesses dos amigos ou a política do seu partido. Mormente se, como assaz amiúde tem ocorrido, estivermos perante alguém caído aqui de pára-quedas, para usarmos uma feliz expressão popular.
            Sugiro alguém que seja natural daqui ou que em Cascais viva há longos anos e que, por isso, sinta esta terra como sua (no sentido nobre do termo), com as suas características, a sua história (que deverá saber).
            Alguém que saiba dialogar: com os colegas do seu Executivo (independentemente da sua cor política), com os funcionários (todos!), com a Comunicação Social (mormente a local e regional, sentindo-a como o eco da actividade camarária e o veículo privilegiado das ansiedades dos povos), com os munícipes (sem excepção)…
            Alguém com a humildade suficiente para criar equipa e distribuir pelouros (mesmo pela oposição) e suficiente orgulhoso para contrariar as «ordens» do partido que maioritariamente o apoiou sempre que elas não correspondam às suas convicções.
            Nem demasiadamente brando que se deixe manobrar nem dando-se ares de auto-suficiente (primeiro passo para que, mais tarde ou cedo, lhe tirem o tapete dos pés…).
            É um retrato ideal, claro. Isso, aliás, me pediram.
            Daí que ouse acrescentar: independente dos partidos políticos.
            Utopia? Gostaria bem que não.
            Nomes? Para quê? Se, nesta conjuntura, são os partidos que decidem, de acordo com a sua inefável estratégia eleitoral e, se for caso disso, até vão buscar um senhor a Bragança (sem qualquer desprimor para os brigantinos…), só porque isso serve às mil maravilhas os seus intentos! Ou será que alguém tem coragem para inverter a situação?

                                                         José d’Encarnação
 
Publicado em Jornal Notícia  [Cascais], edição de 1 de Abril de 1993.