quarta-feira, 19 de julho de 2017

Joaquim Magalhães, o homem

            Hesitei, claro, no título a dar a este ligeiríssimo apontamento, que inicio, confesso, já com alguma emoção. Primeiro, porque tendo privado pouquíssimo com o «homem», foi o suficiente para se ter criado, de repente, quase instantaneamente, uma empatia que não se consegue explicar. Nasce, pronto. E a gente não sabe porquê. Ou, mais tarde vim a descobrir, talvez por havermos pertencido ao mesmo grupo sanguíneo, o O, do dador universal; mais ainda o meu, que sou de Rh negativo.
            Não li ainda o livro, porque acho que vou precisar de um recanto bem aconchegado para nele me embrenhar. Não quero, porém deixar de já lhe fazer referência, depois do abraço grato a Romero Magalhães por ter tido a gentileza de mo fazer chegar às mãos.
            Falo, já se vê, de Joaquim Maglhães, o Homem, o Mestre, o descobridor do Aleixo. Seu filho, o Professor Romero Magalhães, catedrático de Economia na minha Universidade de Coimbra, natural de Loulé (1942), acaba de publicar «Uma Escrita na Primeira Pessoa» (Âncora Editora, Dezembro de 2016), parte da correspondência de seu pai, anotando-a de tal forma que, afinal, podemos dizer que estamos perante não uma obra epistolográfica mas, de certo modo, autobiográfica, porque, através dos seus escritos, penetramos no pensamento e na obra deste professor do Liceu (como antes se dizia), que em Faro viveu boa parte da sua docência.
            Ainda não li o livro. Saboreei, porém, o prelúdio «O dador universal», da autoria de Lídia Jorge, que foi sua aluna. Li a epígrafe, retirada de uma das passagens do livro e que, não duvido, Romero Magalhães escolheu, por lhe parecer que resumia, à perfeição, o que fora a personalidade de seu pai:
 
            «… é de pura divulgação o meu trabalho aqui [em Faro].
            Não passo de um “intérprete”, de um intermediário com vontade de ser um “despertador”. E, muitas vezes, me interrogo sobre a utilidade de uma tal acção. Em geral, suponho-a positiva e é essa suposição que por agora me vai mantendo».

            São 172 trechos (digamos assim), alinhados cronologicamente, que Romero Magalhães mui habilmente entendeu como uma composição musical e, por isso, os dividiu em andamentos: abertura, allegro, andante, largo e «grand finale».
            Naturalmente, havemos de voltar ao livro. Tem que ser!

                                                                                              José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel] nº 248, 20-07-2017, p. 11.

A última palavra d’Os Lusíadas!

            Há largos anos atrás, após a entrevista com o responsável por uma florescente Unidade de Oncologia, por todos muito apreciada, dado o imenso carinho posto pela equipa no atendimento dos doentes, perguntei-lhe, já de microfone fechado, por que razão não recebia maior apoio oficial. Retorquiu-me:
            – Sabe qual é a última palavra d’Os Lusíadas?
            Por sinal, assim de repente, a pergunta à queima-roupa apanhou-me desprevenido e não soube responder de imediato.
            – Inveja! – disse o meu interlocutor.
            Estava tudo explicado!...
            Ando a arrumar os meus papéis. 50 e tal anos de jornalismo e de actividade lectiva nas áreas de Epigrafia, Arqueologia, Património, Comunicação Social e Turismo fizeram com que fosse ajuntando recortes, folhetos, opúsculos, convites e tanto outro material, naquela ideia que se tem: «Quando me jubilar – nessa altura, eu ainda pensava que me jubilaria… – ponho ordem nisto tudo e tenho aqui material para longa série de crónicas, artigos, reflexões…
            Verifico, agora, que não é bem assim; mas a selecção impunha-se e muito material acumulado vai sendo distribuído por instituições, onde será mais útil do que a mim ou aos meus filhos e netos.
            Ocorreu-me, porém, essa tal última palavra do nosso poema épico, quando deparei com o convite endereçado ao chefe de redacção de um jornal (que eu guardara como recordação sua) para ir saborear um almoço de lampreia e dele fazer a respectiva reportagem. E não pude conter um sorriso! É que, no interior do sobrescrito, estavam um cartão de visita, uma foto para eventual publicação e a «informação à imprensa»; e, no exterior, escrita a negro e em diagonal, rubricada pelo director, a seguinte mensagem:
            «Sim, senhor!
            Vá comer o almoço, mas, para eles aprenderem, não virá uma linha a este respeito. O. K!».
            O almoço foi a 8 de Março de 1987, ou seja, o 25 de Abril já ocorrera há anos!
            O chefe de redacção confidenciou-me, depois, recordo-me, que o almoço fora uma delícia; mas, claro, ordens são ordens e… sobre isso não se escreveu uma linha!
            As «coisas» que a gente reencontra, ao remexer em papéis antigos!...

                                    José d’Encarnação
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 712, 15 de Julho de 2017, p. 11.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

«Igualdade e Fraternidade dissolveram-se nas penumbras da utopia…»

           No cartão manuscrito que acompanhava o nº 60 (Março de 2017) da revista Egoísta, escrevia-me Mário Assis Ferreira:
            «Política, mais do que Ciência, é a Arte de governar um Estado. Idealmente, sob as vestes da Democracia Representativa. Distante, é certo, dos Ideais da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Salvou-se a Liberdade! Igualdade e Fraternidade dissolveram-se nas penumbras da utopia… Fruamos, pois, essa preciosa dádiva da Liberdade».
            Política constitui, pois, o tema desse nº 60, que é – repito – datada de Março e preparada, portanto, quando ainda se estava no rescaldo da tomada de posse, a 20 de Janeiro, de Donald Trump, e ainda não houvera incêndios nem armas desviadas... Por isso, o título, em latim, consigna quase um lema, «Pro Patria omnia», a recordar frase amiúde afixada em símbolos de instituições de cariz policial ou militar.

            Outro é, porém, o tom inicial da revista, que abre com enorme desdobrável a mostrar o exterior do Palácio de S. Bento numa aparente ruína, prenunciando, na janela da página 1, o título «Política e ilusão», nota de abertura invulgarmente longa da autoria do próprio director da revista, que pergunta, no final, se, um dia, a razão prevalecerá sobre a utopia e confessa ter a ideia de que nessa nova Ordem Mundial que se vislumbra há uma «prática política» sem horizonte e que não vem em nenhum dicionário disponível, porque… «há quem lhe chame ILUSIONISMO!».

            Antes mesmo de nos debruçarmos serenamente sobre os textos e ilustrações que compõem as 152 páginas da revista, um simples relancear de olhos sobre o seu conteúdo será, porventura, susceptível de nos arrepiar tanto como dar-nos conta de demissões através de um simples telefonema do género da carta que vem transcrita na pág. 6: «It’s our pleasure to inform you that, from this date, your services as President are no longer needed». Temos muito prazer em informá-lo de que, a partir de agora, já não precisamos mais de si!

            Vamos, então, a alguns dos títulos: o último discurso de Michelle Obama; «as cinzas de Fidel» (João Pina); «Never before (como ele diria)», de Paulo Portas; «A Política que se rende» (Daniel Oliveira); «A política é o mais altruísta dos egoísmos» (Adolfo Mesquita Nunes); «No hate, no fear. Immigrants are welcome here», ‘Não se aborreçam, não tenham medo, os imigrantes são cá bem-vindos’ (eloquente conjunto de fotografias de Ashley Comer); «Política, je t’aime moi non plus» (de Maria Manuel Viana, em que cada palavra do título esconde uma citação célebre); «O voto secreto» (José Luís Peixoto) …

            Duma eloquência atroz os cartazes da colecção «Ne boltai!» das páginas 100 a 104. E duas cartas, do teor da atrás citada, também assinadas pelo «Povo», aparecem inopinadamente na revista: uma, também em inglês, a dispensar os serviços do primeiro-ministro (já!), e outra (p. 54), datada de 13 Janeiro de 2018 [sic], demite o presidente do Brasil, onde se declara, a dado passo:

            «Quando a carreira política de Vossa Excelência iniciou, seus bolsos estavam vazios e o povo brasileiro tinha esperança.

            Hoje, todo o mundo caçoa […] e Vossa Excelência é o único rindo. Tomando banho de piscina.

            Não se preocupe. Não vai precisar mais trabalhar.

            Aproveite sua aposentadoria».

            Eu pus […], mas nas cartas não há reticências: há risco por cima das palavras com caneta de feltro negra.

            Patrícia Reis entrevistou António Costa, uma entrevista semeada de fotografias sorridentes. Aliás, Patrícia confessa que se acordara previamente que «seria uma conversa mais ampla, mais intemporal», sem «a Caixa, offshores, SMS, ministros fragilizados»… António Costa «estava bem disposto».

            Sob o «je» do título de Maria Manuel Viana a citação é do francês J. Michelet:

            «Qual a primeira parte da política? A educação. A segunda? A educação. E a terceira? A educação».

            Estamos conversados.

                                                                       José d’Encarnação


Publicado em Costa do Sol Jornal [Cascais], nº 195, 12-07-2017, p. 6.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Vestígios de tremoços?

             São pitorescos, no Alentejo, os campos amarelos de tremoceiro. Admirei-me, há uns 40 anos, quando vi, pela primeira vez, na Barrinha da Praia de Mira, uns estranhos sacos cheios – eu não sabia de quê! – deitados no fundo.
– É tremoço! – explicaram-me.
Na verdade, depois de colhido seco, o tremoço deve ser cozido e tem de passar uma temporada mais ou menos longa dentro de água (corrente ou mudada com frequência), até perder o amargo original e os alcalóides (prejudiciais à saúde) e também para ganhar macieza e aquele típico sabor levemente agridoce, que tão bem acompanha uma cervejinha borbulhante e fresca.
Recebi, há tempos, uma mensagem acerca dos benefícios do tremoço. Desconhecia-os por completo e, por isso, de vez em quando, compro uma mancheia à do Paulo, empresto-lhes um tempero de ervas à minha maneira e regalo-me, eu e os meus netos, porque, rezava a mensagem, o tremoço é «uma das principais fontes vegetais de proteína existentes» e a elevada presença de fibra permite-lhe «ter um papel activo na regulação do colesterol e glicemia e ainda na regulação e protecção da flora intestinal, também devido à elevada presença de fitoquímicos».
E eu, que, homem do Sul, já gostava de tremoços, fiquei a gostar ainda mais! 
Qual não foi, porém, o meu espanto quando, ao ler os ingredientes constantes de uma das embalagens de pronto-a-comer que compro na Cozinha com Alma, me salta à vista que «pode conter vestígios de crustáceos, peixe, amendoins, frutos de casca rija, aipo, mostarda, tremoço, moluscos».
Como é? Um singelo prato que, à primeira vista, nada teria a ver com tremoços, poderia ter vestígios deles?
E mais espantado ainda fiquei quando me foi servida a refeição no avião da TAP: um «pão de cereais com peito de frango, maionese, pickles, rúcula e orégãos». Achei bem o pão de cereais, saudável, e o uso, cada vez mais apreciado, de rúcula e dos orégãos (agora, finalmente, descobertos…). Então não é que também ali vinha a informação, em maiúsculas: PODE CONTER VESTÍGIOS DE CRUSTÁCEOS, PEIXE, AMENDOINS, FRUTOS DE CASCA RIJA, AIPO, MOSTARDA, TREMOÇO, MOLUSCOS?
Fiquei banzado. E fui estudar: trata-se de uma determinação do Regulamento nº 1169/2011 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 25 de Outubro. De facto, assim, se, no pão, encontramos um tremoço, não podemos reclamar – estávamos previamente avisados! Não seria um tremoço inteiro, mas vestígios; em todo o caso…tremoço!

                                                            José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 711, 1 de Julho de 2017, p. 11.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Uma catadupa de emoções

             Não me refiro ao gigantesco incêndio que devorou vidas de pessoas e de animais e destruiu habituações no Centro do País e que a todos dolorosamente emocionou. Desse muito já se falou e continuará a falar. Permita-se-me, pois, que escreva sobre factos mais comezinhos, de aqui ao pé de nós, susceptíveis também de nos despertar emoção.

Povo
            Começo pela sardinhada que a Junta de Freguesia de Cascais (eu sei que se chama outra coisa, mas, como não concordo, fica assim) ofereceu no Centro de Dia da Areia, quinta-feira, dia 22. Toda uma emoção o povo a confraternizar, sem etiquetas, em torno de um bom prato de excelentes sardinhas, sangria, batatas cozidas, salada a condizer. Foi bonito de ver como aquele enorme punhado de jovens voluntários a todos serviu, prontamente, de sorriso nos lábios. Gostámos de ouvir a Ermelinda Cardoso declamara aquele poema em louvor de Cascais, de que ela tanto gosta (como que a reviver antigos tempos do Grupo Cénico…); o Toy, como alguém dizia, que lança os foguetes e corre a apanhar as canas... Foi bonito de ver a marcha do Centro de Dia do Bairro do Rosário. Povo que é Povo nunca esmorece e confraterniza hoje como se o mundo fosse acabar amanhã. Estiveram autarcas, houve discursos de ocasião; mas a emoção de estarmos juntos, os velhos e os menos velhos, a tudo acabou por suplantar, num clima sem igual!

«Santos no pátio»
Santo António a pregar aos peixes...
Nossas Senhoras e, na parede, as fotografias das autoras
Santo António teve direito a quadras e a lugar de muito relevo
            Na sexta-feira, outra vez o pessoal da chamada 3ª idade a dar cartas, a dizer que está ali prás curvas, que a vida são dois dias e que há sempre motivos para a alegria nos inundar. Os utentes dos centros de dia da Santa Casa da Misericórdia vieram mostrar, na sala que dá para o pátio interior da Rua da Saudade, o resultado de muitas horas de ocupação: inúmeras imagens de Santo António, por exemplo, para todos os gostos e quadras populares. E cantou-se. E proclamou-se bem alto que «velhos são os trapos!» e que só não se ocupa quem não quer, só não se mexe quem prefere lamuriar-se pelos cantos, num encostar-se às paredes…

Maria do Céu Guerra
Maria do Céu Guerra: ao vivo, em fotografia e em busto
Maria do Céu Guerra, agradece, emocionada
e recordou os primeiros tempos do TEC
            No Espaço TEC, uma nova exposição, devida, de modo especial, ao talento de João Vasco, que, infelizmente, já pouco pode movimentar-se e se vê forçado ao conchego do lar, mas nós sempre a pensarmos nele. Homenageou-se, desta feita, Maria do Céu Guerra. Dei-lhe, claro, aquele abraço sentido, duma Amizade que dura há tantos anos quantos o Teatro Experimental de Cascais tem. Carlos Avilez recordou, com emoção (que se me perdoe a repetição, mas é que foi mesmo assim!), os primeiros tempos, no Gil Vicente. E eu lembrei-me que íamos, com o Correia de Morais, no final dos ensaios, buscar a Céu e demandávamos o Estribinho ou, mais perto, o Luisiana Jazz Clube do Villas Boas (ao fundo da José Florindo de Oliveira). Emocionámo-nos, claro, ao evocar esses difíceis anos 60, a Esopaida (a 1ª peça que ousadamente se levou à cena), as cumplicidades, as constantes ameaças da Censura… E sublinhou-se insistentemente o imprescindível papel que o Teatro ocupa na sociedade. Emocionante, o testemunho de um dos ex-alunos da Escola Profissional de Teatro.
            Homenagem muito digna a uma grande Actriz que, sem alardes, vai seguindo o seu caminho, numa ternura imensa, que tão bem retratada está, por exemplo, no filme Os gatos não têm vertigens, recentemente passado de novo na televisão, após o êxito que teve nas salas de cinema. A Céu é assim: uma doçura, uma actriz de corpo inteiro, que Cascais e o seu Teatro Experimental tiveram o privilégio de ver dar os primeiros passos, em companhia do João Vasco, do Carlos Avilez, do saudoso Santos Manuel…

Concerto de Verão
            E, a concluir as emoções da semana, o Concerto de Verão no Boa Nova.
            Nicolay Lalov dirigiu com o rigor que lhe é reconhecido a Sinfónica de Cascais. Escolheu desta vez o jazz como tema: Cole Porter («Salute para orquestra»); Leonard Bernstein, West Side Story, com a soprano Zita Milene e o tenor Diogo Pinto; de George Gershwin, «Porgy and Bess Suite» e, a preencher toda a segunda parte, a fabulosa «Um Americano em Paris», que nos emocionou e via-se bem que emocionou também os músicos, naquele impressionante bailado de braços a que os instrumentos de corda (mormente os violinos) em tais circunstâncias obrigam.

                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal [Cascais], nº 193, 28-06-2017, p. 6.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Os fogos e a comunicação

            Permita-se-me que, perante o facto – hoje confirmado – de ter havido falta de comunicação e esse ter sido um problema nos fogos que atingiram o Centro do País, problema que pode pôr-se também em caso de inundações ou de tremores de terra, ponha à consideração o seguinte: a importância das rádios locais!
            Em meu entender, todas as pessoas de uma região deveriam saber o contacto da ‘sua’ rádio local, porque será ela que, em tais emergências, por melhor conhecer o terreno, pode dar as informações mais ajustadas.
            Para isso, há que providenciar dois equipamentos, pelo facto de, amiúde, faltar a electricidade e as antenas de telecomunicações também avariarem: urge fazer uma campanha para que haja em cada casa um pequeno transístor (que funciona a pilhas, como se sabe) e que cada emissor de rádio local seja provido de um pequeno gerador autónomo de energia eléctrica, para poder continuar a funcionar, mesmo quando a rede eléctrica for abaixo.
            Assim as rádios locais cumpririam com maior eficácia a sua função de criar comunidade e fomentar a necessária solidariedade entre as populações que servem.
                                                                       
                                                                        José d’Encarnação

sábado, 24 de junho de 2017

As eternas e sugestivas rivalidades!

Entre povoações vizinhas
            Rivalidades entre povoações vizinhas sempre as houve.
            Poderíamos encher páginas e páginas a contá-las de Norte a Sul do País.
            Janes criou, em 1938, a Sociedade de Instrução e Recreio de Janes e Malveira «com o objectivo de instruir, beneficiar e recrear os associados»? Pois em 15 de Fevereiro de 1941 funda-se, do outro lado da estrada, a Sociedade Familiar e Recreativa da Malveira da Serra. Janes prepara corso carnavalesco? Malveira também tem! Faro tem um clube de futebol a preceito? Olhão também tem de ter! E a rivalidade entre os dois clubes foi sempre acirrada. Como entre o Benfica e o Sporting. Como entre Guimarães e Vizela… Tantos, tantos!...

Entre Cascais e Lisboa
            Cascais também sempre quis rivalizar com Lisboa. Ou melhor, Lisboa sempre quis rivalizar com Cascais, ciumenta desde que os reis começaram a vir aqui passar férias e, com eles, a burguesia e a alta finança. Um espinho atravessado, desde finais do século passado, na garganta dos mandantes alfacinhas…
            No entanto, como, apesar de tudo, Lisboa é cidade e é a capital e a sede oficial do governo (ainda que muitos governantes habitem em Cascais, essa é que é essa!...), manda quem pode e, por exemplo, quando se viu que o turismo, em que Cascais foi pioneiro (e esse palmarés venha o primeiro a negá-lo!), era fecunda fonte de riqueza, logo Lisboa pensou em liquidar a Junta de Turismo da Costa do Estoril e procurar também obter «mais adequada» partilha dos dinheiros provenientes da concessão da chamada Zona de Jogo… E ‘atirou’ ali para as bandas do Ribatejo a sede de decisão da política turística para estas paragens. Se já se viu
            Eu até nem sei muito bem onde é; mas Junta de Turismo acabou e as questões turísticas do concelho de Cascais – se os presidentes do Município se não impuserem – vão continuar a ser decididas lá longe, por quem, eventualmente, até nem sabe que há grutas pré-históricas em Alapraia, um dos ai-jesus da Junta de Turismo durante os (já longínquos) anos 60.
            Pouco antes do 25 de Abril, houve, até, discussão acalorada: que Costa do Estoril não tinha sentido como designação: o que seria bom era Costa de Lisboa e até os arautos dessa teoria se apressaram a mandar fazer milhares de pastas com a nova designação, pastas de que – pecador que confessa é perdoado… – acabei por ser eu o único beneficiário, porque as logrei recuperar do lixo!...

Universidade – uma eterna rivalidade cascalense
            Pronto, as rivalidades do hóquei – de mui saudosa memória (olá, Padre Miguel!...) – também se esvaíram, a partir do momento em que esse deixou de ser, na «linha», o desporto de eleição do Cascais, do Parede, do Carcavelos, da Juventude Salesiana…
            Agora, a rivalidade é outra: uma Universidade! Cascais não é verdadeiramente Cascais se não tiver uma Universidade! Pode ser de Saúde, de Tecnologia de Ponta, de Astronáutica, de… qualquer coisa! Mas Universidade tem de ter, dê por onde der!
            Nunca me meteria, confesso, a fazer uma crónica sobre este tema, eu, que sou catedrático aposentado de Coimbra, se – ao arrumar os meus papéis – me não tivesse caído de uma das pastas documentação curiosa, que passo a referir.
            Em carta que me foi dirigida, na qualidade (então) de presidente da Associação Cultural de Cascais, o Prof. Doutor Afonso de Barros, na sua qualidade de «presidente da Comissão Instaladora» da Universidade de Cascais, convidava-me a estar presente na sessão de apresentação desse projecto, a realizar no Dia do Município de 1994, 7 de Junho.
            Promotora do projecto? A «EIA – Ensino, Investigação e Administração, S. A., constituída por Professores Universitários, Investigadores Científicos e Quadros Superiores, associados ao Grupo Caixa Geral de Depósitos, ao Montepio Geral ao Entreposto, e ao Banco Português de Investimento», «à Coba e à Ensinus, com a participação da Câmara Municipal de Cascais».
            Propósito: «na fase inicial, formar licenciados em Gestão de Sistemas e Informação, Gestão e Estratégia, Gestão Territorial e Urbana e Gestão do Ambiente», a começar já no ano lectivo de 1994-1995.
            Da Comissão Instaladora, presidida, como se escreveu, pelo Prof. Catedrático Afonso de Barros, faziam parte 9 personalidades, entre as quais Ana Benavente, João Paulo Monteiro (catedrático), João de Pina Cabral (investigador principal) e Joaquim Pina Moura (em representação da C. M. Cascais). Entre os consultores científicos, chamaram-me a atenção os nomes de João Ferreira do Amaral (do ISEG) e João Salgueiro (Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa), que seria o Presidente da Assembleia Geral, tendo como vice-presidente o Dr. Artur Santos Silva.
            E pronto. Está a notícia feita.
            Quer o leitor nomes mais sonantes? Quer cursos mais ajustados às necessidades do dia-a-dia cascalense do que «Gestão Territorial e Urbana» ou «Gestão do Ambiente»? Não, não é possível.
            ‒ Então e cadê a «Universidade de Cascais»?
            ‒ Sumiu!
            ‒ E essa tal de EIA sumiu também?
            ‒ Ná, não sumiu! Ponha o amigo «E. I. A. – Ensino, Investigação e Administração» no Google e fica a saber da marosca (passe o termo!). É que, neste caso, outra rivalidade funcionou: a de Oeiras!
            Pois é! Não houve Universidade de Cascais, mas houve a Universidade Atlântica, sediada em Barcarena, nas instalações da antiga Fábrica da Pólvora! Cascais, à falta de trunfos, perdeu a rodada!...
            Vencido, mas não convencido! E «Universidade» continua a ser palavra saborosa que mui frequentemente se badala. A ‘internacionalíssima’ a instalar em Carcavelos, por exemplo. E até já se aventou que as decrépitas estruturas do antigo Hospital dos Condes de Castro Guimarães, no coração da vila, poderiam vir a anichar pólo de Medicina da Universidade Católica!...
            Bem fez a Delegação da Cruz Vermelha: nada de universidades! Uma Academia Sénior é o que é! E estão-lhe a abarrotar ambas as secções. Qualquer dia, tiram-lhe o Sénior e põem «Academia da Experiência» ou, mais ao jeito do facebook, «Academia da Partilha dos Saberes». Nesse domínio, as rivalidades não contam: dão ainda mais ânimo a continuar!

                                                                       José d’Encarnação

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A ciência da espera

            A aeronave saiu da zona de embarque passavam já minutos após a hora anunciada para o início do voo. Entrou na fila de espera. Descia um avião ou dois e outro se fazia à pista. Os motores começaram a acelerar forte para a descolagem 27 minutos após a partida programada. Certamente recuperará no ar do atraso sofrido, pensei eu; mas decerto também no aeroporto de chegada haverá fila (estão estipulados horários precisos para o movimento de chegadas e partidas) e poderemos chegar pontualmente ou não. Também isso pouco interessa e não serei eu que vou ter com o comandante a dizer-lhe que vá mais depressa ou mais devagar. Para já, abaixo de nós um manto compacto de nuvens brancas, que não nos deixam ver o chão, por cima, é o azul do céu límpido. Ficou para trás a foz do Tejo, cheia de línguas de terra, alagadas umas, cultivadas (ao que parece) outras e até numa há o que eu chamaria de monte, se não estivesse em pleno por cima do Ribatejo e não no Alentejo.
            E dei comigo a meditar: são imprescindíveis, por intrínsecas razões de segurança, estas esperas na pista do aeroporto. Ai de nós se as não houvera! Mas, no dia-a-dia, não tem a espera uma conotação sempre negativa, prenhe amiúde de mui escusada ansiedade? Espera-se pelo autocarro, que vem atrasado; espera-se pela consulta médica, que raramente é a horas e que, aliás, já foi marcada há muito. Espera a mãe pelo nascimento do filho: após os sete meses, se não antes, outro não é o pensamento habitual: se virá bem, se será prematuro, se dá pontapés simpáticos…
            Pronto. Afinal, precisei de chegar aos 72, para me consciencializar que a espera é uma ciência; desesperar não adianta e, também aqui, a serenidade deve imperar.
Neves... eternas? Ou também elas,
tranquilamente, à espera de um sol
mais quente, que, um dia, virá?...
            A 20 de Julho de 1969, Neil Armstrong baptizou a região da Lua onde pousou com o nome de Mar da Tranquilidade. Acho que fez muito bem e, se não foi sua intenção ensinar-nos que lá, a quase 400 000 quilómetros da Terra, é a Tranquilidade que impera, bem poderia tê-lo dito e, sobretudo, para nos ajudar a ter por lema a vontade de bem saborear o presente, o único que nos é proporcionado para viver.
Assim, eu, agora, com duas horas e meia pela frente. Sim, uma já passou e nem dei por isso! Envolto no mecânico e ‒ felizmente! ‒ monótono trabalhar dos reactores, vejo a neve a rendilhar de brancura as agrestes e inacessíveis reentrâncias dos Pirinéus. Também ela espera, paciente, que o Sol caloroso a venha afagar. Será um beijo mortal; mas é boa a imagem da vida! Que a espera, afinal, acaba por ser vivificante!

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 710, 15 de Junho de 2017, p. 11.

 

Uma evocação do Prof. Marques de Almeida (1936-2017)

             Poderá parecer estranho que seja um catedrático de História da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra a ousar fazer aqui uma evocação da vida e da obra do Prof. António Augusto Marques de Almeida, que ontem (15 de Abril) nos deixou e cujas exéquias vão realizar-se daqui a escassas horas. É que a sua personalidade me marcou profundamente no pouco tempo que tive para privar com ele.
            Participámos ambos, por nomeação ministerial, no ano lectivo de 2000-2001, na Comissão de Avaliação Externa dos Cursos de História, criada no seio da CNAVES. Couberam-me as funções de vice-presidente e, nessa condição, presidi às Subcomissões de Arqueologia e de História da Arte. Tínhamos, porém, muitas reuniões em comum, foi esse um ano cheio, como alguns recordarão, e Marques de Almeida exercia então as funções de vice-reitor da Universidade de Lisboa. E fiquei, desde o primeiro momento, amigo de Marques de Almeida, pela sua bonomia, ponderação, seu perspicaz mas compreensível espírito crítico. Creio que – também graças a todos os seus valiosos contributos – fizemos um bom trabalho e, desde então, qualquer encontro com Marques de Almeida era uma festa, pela Amizade que nos unia, pelas recordações interessantes que esse convívio na Comissão de Avaliação Externa nos proporcionara.
            Perdi, de facto, um Amigo. E a comunidade científica portuguesa recordará nele, estou certo, o investigador probo da época dos Descobrimentos, nomeadamente no que se refere às transacções e às motivações económicas.
            O Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa publicou, em 2006, por ocasião da sua jubilação (em Maio de 2005), o livro Rumos e Escrita da História (Estudos em Homenagem a A. A. Marques de Almeida), que teve a coordenação da Prof.ª Maria de Fátima Reis, uma publicação de Edições Colibri. Para ele, obviamente, remeto, porque nele se terá uma ideia mais precisa do que foi o seu labor. Aliás, salienta-se, na apresentação da obra:
            «Em vinte e seis anos de persistente labor, António Marques de Almeida desenvolveu uma actividade intensa e fecunda na sua Escola, como docente, investigador e administrador É indelével a forma como transmitiu a sucessivas gerações de estudantes, de licenciatura, pós-graduação, mestrado e doutoramento, as exigências de matematização do real e o rigor da metodologia científica, seja em cadeiras de Teoria e Método, ou em disciplinas da sua especialidade, História Moderna (Economia e Sociedade) e História da Ciência».
            Permita-se-me, porém, que cite alguns dos seus trabalhos:
            Os livros de aritmética (1519-1679): subsídios para a história da mentalidade moderna em Portugal, Universidade de Lisboa, 1989.
           Capitais e Capitalistas no Comércio da Especiaria. O eixo Lisboa ‒ Antuérpia (1501-1549): Aproximação a um Estudo de Geofinança. Edições Cosmos, Abril de 1993.
           Aritmética como descrição do real, 1519-1679: contributos para a formação da mentalidade moderna em Portugal, 2 vols., Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994..
            – «A matemática em Portugal (séculos XV-XVI) e as suas fontes italianas: a difusão do paradigma», Arquipélago. História, 2ª série, vol. 1, nº 1 (1995): 105-121.
            Dicionário Histórico dos Sefarditas Portugueses: Corpo Prosopográfico de Mercadores e Gente de trato. Lisboa, Campo da Comunicação, 2009 (que teve tradução inglesa: Historical Dictionary on Portuguese Sephardim: A prosopography of men of culture and science).
            E não resisto a transcrever, com a devida vénia, parte do testemunho que o Doutor Santiago Macias, presidente da Câmara de Moura, escreve hoje no seu blogue “Avenida da Salúquia 34”:
            «Foi meu professor de Matemática para as Ciências Sociais e Humanas no ano lectivo de 1981/82. A primeira aula foi no dia 7 de Dezembro, na sala 7. Recordo o sorriso meio irónico com que entrou na sala e deparou com a turma, silenciosa e aterrorizada. Matemática?? A cadeira era obrigatória. Com sensibilidade e inteligência, o Prof. Marques de Almeida levou a "coisa" por outros caminhos. Interessou-nos por Bento de Jesus Caraça, pelamatematização do real, pela visão qualitativa e não quantitativa. As aulas eram espaços de liberdade e Marques de Almeida obrigava-nos a improvisar. Uma das componentes obrigatórias era a "apresentação oral". Tínhamos de falar durante 10 ou 15 minutos sobre um tema à nossa escolha. Optei pelo cinema português e pela visão que os estrangeiros colhiam de Portugal através dos filmes. Com aquele pequeno exercício, Marques de Almeida queria que nos disciplinássemos e que puséssemos o cérebro a trabalhar cronometricamente. Lembrei-me do seu austero "tens 10 minutos para terminar" muitas vezes ao longo da vida. Orientou-me nas leituras, obrigou-me a ler o Capitalismo monárquico português, de Manuel Nunes Dias, fez-me trabalhar sobre a feitoria portuguesa de Antuérpia e, sobretudo, ajudou-me. […]
            Coincidências e ironias do destino: doutorei-me, em Lyon, no amphithéâtre Benveniste. O nome de judeu que motivou a criação pela família Benveniste, em 1996, de uma cátedra na Universidade de Lisboa. Primeiro director dessa cátedra? Marques de Almeida.»
            Que descanse, pois, em paz, quem tanto nos legou – pelo saber e pelo exemplo!

                                                                       José d’Encarnação

Durval Moreirinhas: a evocação necessária

Durval Moreirinhas
Foto de Rui Melo Pato
            A notícia já perpassou pela Comunicação Social e já foram tecidos todos os comentários: no passado dia 12, morreu aos 80 anos, em Lisboa, acometido de enfarte na via pública O músico e compositor Durval Moreirinhas «considerado o mais internacional dos violas de Coimbra». Contudo, não me era possível deixar sem uma palavra este passamento, porque Durval Moreirinhas muitas vezes esteve connosco em Cascais, nomeadamente com Carlos Carranca, nos espectáculos que este organizava. E, por outro lado, praticamente não havia sessão em que se evocasse o fado de Coimbra em que o nome de Durval Moreirinhas não surgisse.
            Durval Araújo Cerqueira Moreirinhas nasceu em Celorico de Basto, a 11 de Abril de 1937 e é «considerado o decano dos intérpretes de viola do Fado de Coimbra». Acompanhou, de facto, como alguém escreveu «as mais talentosas e conhecidas vozes do fado e da canção de Coimbra, sobretudo, mas também de Lisboa».
            «Era, talvez, neste momento, o decano dos intérpretes de viola do fado de Coimbra e, certamente, aquele que mais acompanhamentos fez em discos e em espectáculos no país e no estrangeiro», escreveu
Rui Melo Pato, que acrescentou:
            «Não há guitarrista quase nenhum e cantor, creio que também não, que, nos últimos 60 anos, não tivesse sentido o rigor e a qualidade dos seus acompanhamentos».
            Que descanse em paz! Fica-nos a saudade dos bons momentos poéticos que nos proporcionou, levados na melodia ímpar dos seus acordes!                                  
                                                                                  José d’Encarnação

 

Daniela Mercury vai aquecer o Salão Preto e Prata

             E, ao que parece – e bem! –, o Salão Preto e Prata do Casino Estoril volta a constar do périplo de artistas de renome internacional. Confesso, já estávamos com saudades! Tudo era só Meo Arena e Coliseus, quando o Casino Estoril sempre primara por trazer a Portugal os maiores vultos da música nacional e internacional.
Daniela pisa, pela 1ª vez,
o palco do Salão Preto e Prata
            Bem-vinda, pois, será a azougada Daniela Mercury, que, embora estejamos em época de calor, certamente vai irradiar um outro calor no ambiente aconchegado do Salão Preto e Prata, que lhe não regateará aplausos e que a vai acompanhar, estou certo, nos sacudidos ritmos a que nos habituou.
            Mas uma coisa é ver na televisão ou ouvir na rádio, outra é ver ao vivo num palco que estará apetrechado a preceito para fazer desta noite do próximo dia 3 (a primeira 2ª feira de Julho), a partir das 22 horas, uma noite memorável, como a das grandes estreias – porque, acentue-se, por incrível que pareça, Daniela Mercury ainda não pisara aquele palco! E garanto que vai sair deliciada com o público – “Quero ver todo o mundo sambar!…” – e o público deliciado com ela.
            Como se escreve na ‘informação à imprensa’, «a cantora baiana, de São Salvador, promete uma actuação repleta de energia, cor, dança e muita alegria», ou não fosse ela baiana! “Nobre Vagabundo”, “O Canto da Cidade” ou “Pérola Negra” serão, sem dúvida, temas com que saberá electrizar o público.
            «Daniela Mercury tem a revolução e a reinvenção no sangue», conclui o responsável pelo Gabinete de Imprensa. Estamos completamente de acordo, Luís!

                                                                                  José d’Encarnação

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Brisas do Sul completou 20 anos!...

             Luís Gerardo Viegas Viegas, director do jornal Brisas do Sul, que se publica em Olhão, congratulou-se, em texto publicado no facebook, a 29 de Maio último, com o facto de o seu «jornal regional de defesa dos interesses e valores algarvios» ter completado a bonita idade de 20 anos, o que, no quadro da imprensa local e regional, é digno de nota. Como jornalista de âmbito regional há mais de 50 anos, não posso deixar de me congratular, tanto mais que chegara a soar a notícia de que Brisas do Sul dera por finda a sua missão, o que não nos admiraria, atendendo à falta de interesse e mesmo, amiúde, de oposição, que a imprensa local é alvo por parte das entidades públicas e privadas.
            Adérito Vaz chegou mesmo, na edição de Março do nosso jornal, a manifestar o seu pesar, porque – se tal fosse verdade – esse poderia ser mais um passo «a acelerar a diminuição da imprensa regional, que está cada vez mais reduzida».
            Acentuou Adérito Vaz o que foi o esplendor, nesse domínio, da década de 80, em que, através da imprensa local e regional, se fomentou comunidade, se estreitaram laços entre os locais e os emigrantes, por exemplo, que anseiam – tal como os soldados em África ansiavam – pela chegada do jornalzinho que lhes trazia notícias da sua terra e dos seus vizinhos. Podia o seu conteúdo ser pobre, assinala A. Vaz, podiam alguns chamar-lhes pasquins, o certo é que a função de imprensa local e regional assumia – e assume, enquanto deixarem alguns perdurar! – um papel fundamental na vida de todos nós. Também as rádios locais vão fechando. E lembro-me de ter estado no Rádio Clube de Monsanto, cujo director, o meu amigo Prof. Joaquim Manuel da Fonseca, me dizer «Veja lá se pelas Lisboas me consegue arranjar alguém que venha tomar conta disto, eu vendo, que já estou cansado, é toda uma vida…».
            Tempo houve em que os autarcas compreendiam o significado da imprensa local, como veículo das necessidades da população que os elegeram. Cedo passaram, porém, a querer instrumentalizá-la e a fazer todos os possíveis para a aniquilar, caso não fosse da sua ‘cor’ política. Tristes autarcas. Triste país!...
            Brisas do Sul soube resistir; Noticias de S. Braz também! E assim vamos defendendo, «com sangue, suor e lágrimas», os interesses e os valores algarvios!

                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel] nº 247, 20-06-2017, p. 11.

domingo, 18 de junho de 2017

Atanchar os dentes

             – Bolas! O diacho do cão atanchou-me bem os dentes nas canelas, o alma do diabo! Se eu deixasse, até os ossos ele me tarrincava! Cão político!... Lá lhe consegui dar uma trolitada valente e lá foi ele calhincando por i fora!
            Pois! Exemplos, Ti Afonso, exemplos!...
            Há muito que não ouvia qualquer dos termos e valerá a pena ver bem que significam e donde vêm. Vamos primeiro ao atanchar e, de caminho, tarrincamos também. Calhincar não queremos – até porque deve ser vocábulo onomatopaico, que o canito deve ter saído dali «caim», «caim», «caim!»… de rabinho entre as pernas… Também do adjectivo «político», como se o bicho defendesse o seu território, os seus interesses, com unhas e dentes… bem, essa é outra conversa e deixemos o velhote lá na sua, que porventura poderá ser a de muitos. Adiante!
            Fixemo-nos, então, no atanchar. O «a» inicial, já se sabe, é como no «amandar», um «a» que a gente põe para dar mais força; chama-se, em gramática (ou chamava-se…), um prefixo, este de uso popular, um «a» protético! Agora imagine-se que «tanchar» vem do latim «plantare», que deu, no português medieval, «chantar». E depois? O povo gosta muito de simplificar as palavras, um tudo-nada troca-tintas (diríamos…); e chantar custava muito a dizer, vamos lá trocar as sílabas – e deu tanchar (chama-se a isto uma… metátese!). Tanchão é, por exemplo, a estaca de árvore que se atancha no chão para pegar!
            Tarrincar, por seu turno, corresponde, claro, na voz do povo, a trincar. Mas, aqui para nós, em relação aos tais de que falávamos, não apetece mesmo dizer que eles nos tarrincam os ossos e até nos sugam o tutano?!..
                                                           José d’Encarnação

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 221-222, Junho-Julho de 2017, p. 10.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

“Egoísta” duplamente premiada!

É o seu 80º galardão!
            A revista Egoísta, propriedade da Estoril Sol, arrecadou mais dois grandes prémios na edição de 2017 do Papies, em cerimónia que decorreu, no passado dia 6 de Junho, no Salão Preto e Prata do Casino Estoril. Com esta dupla distinçãoreforça, assim, o estatuto de revista portuguesa mais galardoada de sempre, registando 80 prémios, desde o seu lançamento em 2000.
            Na 26ª edição deste conceituado certame, que reuniu os melhores trabalhos de comunicação gráfica, a “Egoísta” foi galardoada na “Categoria de Revista”, pela edição nº 58 inspirada na cidade de “Lisboa” e pela edição nº 60 dedicada à “Política”.
            Recorde-se que a revista ocupa, habitualmente, um lugar de destaque nas cerimónias de entrega dos Prémios Papies, tendo já recebido, em anos anteriores, múltiplos galardões em diferentes categorias.
            Lançada há 17 anos, ganhou rapidamente uma importante dimensão internacional. Dirigida por Mário Assis Ferreira e tendo como editora Patrícia Reis, esta singular publicação da Estoril Sol tem, pois, um invejável e inigualável palmarés, nomeadamente tendo em conta a sua excelência gráfica e de conteúdos.
Um edifício em ruínas?
            A edição nº 60 merece, na realidade, na continuidade da excelência das demais, uma atenção redobrada pela enorme mensagem que transmite! O tema é «Pro Patria» e ao editorial deu Assis Ferreira o sugestivo título de «Política e Ilusão». Por outro lado, abre – imagine-se! – com um enorme ‘desdobrável’ a mostrar o edifício da Assembleia da República em ruínas! Sintomático e … esplendoroso num fino sentido crítico que urge apreciar e que nos deveria fazer reflectir (os que ainda têm capacidade para isso!...).
            Parabéns a Assis Ferreira e a toda a sua extraordinária equipa!

                                                                       José d’Encarnação

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Isabel Pereira, museóloga

              Mão amiga me fez chegar esta foto que capta um instantâneo da fala do Dr. António Nabais, Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Museologia, em que enaltece os méritos da Dra. Isabel Pereira, galardoada como ‘Personalidade do Ano’ no âmbito dos prémios anualmente atribuídos por aquela associação criada em 1965 e que tem por objectivo pugnar pela defesa da Museologia em Portugal.
              A sessão decorreu na tarde do passado dia 9, no Museu Soares dos Reis (Porto).
              Isabel Pereira começou a notabilizar-se como numismata, integrada na equipa luso-francesa que escavou a cidade romana de Conímbriga, de cujo Museu Monográfico começou por ser conservadora. Deve-se-lhe o volume III das Fouilles de Conimbriga, Les Monnaies (Paris, 1974), que assinou com Jean-Pierre Bost e Jean Hiernard, obra que foi então premiada internacionalmente como notável exemplo de estudo numismático.
              De Conimbriga foi para a Figueira da Foz, onde se iniciava então a construção de raiz do Museu Santos Rocha, com o apoio da Fundação Gulbenkian, numa sequência do que se pusera em prática no Museu Gulbenkian em Lisboa. Foi Isabel Pereira a grande obreira da organização do empreendimento, enquanto mantinha a sua outra ‘predilecção’, a Arqueologia (aliás, o museu tinha importante colecção legada pelo seu patrono), e deve-se-lhe, por exemplo, o conhecimento que hoje se tem do importante e mui singular povoado de Santa Olaia, um dos primeiros a dar conta da presença de Fenícios em território nacional.
              Da Figueira seguiu para o Museu de Santa Joana Princesa, em Aveiro, onde também procedeu à reorganização das colecções e fez obra de mérito. Aí a colheu a aposentação, que, porém, não correspondeu a descanso. Assim, deve-se-lhe o monumental volume Moedas Romanas do Museu Municipal de Santiago do Cacém, Câmara Municipal de Santiago do Cacém, 2007, em que teve o precioso apoio do marido, Teófilo Silva. A que se seguiu As Moedas. Villa Romana do Rabaçal (Penela – Portugal). 25 Anos de Trabalhos Arqueológicos (1984-2010), Câmara Municipal de Penela, 2012, também com a colaboração de Teófilo Silva e de Miguel Pessoa (o arqueólogo do sítio). Sei que têm entre mãos a preparação do catálogo das moedas do Museu de Faro, que apenas circunstancialismos da mais diversa ordem têm impedido de ver a luz do dia.
         Sirvam estas singelas linhas para demonstrar quão ajustado foi o prémio ora concedido, porque Isabel Pereira reúne em si os dotes de uma verdadeira museóloga: à direcção dos museus soube mui sabiamente aliar o trabalho científico, em que é mui reputada especialista. Comentou quem me enviou a foto:
        «Foi muito emotivo, muito bonito e a Dra. Isabel estava muito calma e assertiva. As suas palavras foram belíssimas também.»
           Honra ao mérito!
          Congratulo-me vivamente! Inclusive por contar a Isabel e o Teófilo entre os meus grandes amigos. 
 
                                              José d’Encarnação