quinta-feira, 31 de março de 2016

Escrever sobre Cascais

     Confesso-me perturbado. E peço desculpa por, num momento em que as perturbações deveriam ser pelos motivos muito mais graves que afectam a Europa e o mundo, eu ouse perturbar-me também com uma aparente ninharia. Cedo meus pais me ensinaram, porém, que é das pequenas coisas que acabam por se fazer as grandes.
      E volto, por isso, àquela dissertação de mestrado, sobretudo por o seu autor residir no concelho e até fez voluntariado em programa da Geração C. Não saber que o presidente da União de Freguesias Cascais – Estoril é conhecido como Pedro Morais Soares e chamar-lhe António Soares?! Um pormenor de somenos, dir-se-á; mas creio ser sintoma de uma distracção que dificilmente se aceita. Como a de haver obtido o grau de Mestre em Administração Pública, mediante a análise do papel exercido pelas freguesias do concelho de Cascais em relação ao Estado e à Sociedade, e não referir no seu trabalho um único livro sobre esse concelho!...
      Pasmei.
      E dei comigo a interrogar-me, sabendo que Cascais se situa, seguramente, entre os dez concelhos do país com mais publicações sobre todos os aspectos da actividade dos seus habitantes e instituições: será que o aconchego da sala de leitura do Museu-Biblioteca dos Condes de Castro Guimarães não foi substituído a contento? As publicações não estão acessíveis? Não há divulgação?
      Sim, já não temos a Livraria Municipal e o recanto que ora há com essa função na loja da Casa das Histórias Paula Rego passa despercebido; mas tanto a Livraria Galileu como a Livraria RG pugnam por ter livros sobre Cascais! E não há as bibliotecas?
      Eram dúvidas a mais e, por isso, quis saber como está o processo de disponibilização ao público, em geral, e aos estudiosos, em particular, o muito que sobre Cascais já se estudou, consubstanciado em muitos milhares de páginas impressas!

Aí vai o que logrei saber
      Primeiro, na Biblioteca da Casa da Horta, há uma sala expressamente dedicada ao Fundo Local, onde estão acessíveis esses livros e, de modo especial (convém não esquecer!), as colecções dos órgãos de comunicação local e regional. Sim, os jornais! O autor daquela dissertação teórica queixou-se de que nada ficara a saber, por exemplo, do que se fazia em Cascais, limitando-se a observar que havia exposições “para a população sénior”. Só para a população sénior? E não há publicações? Caso lhe tivessem dito que, para conhecer a vida local, precisava de folhear a imprensa local e regional, certamente a sua visão teria sido bem diferente!...
      Depois, a outra biblioteca municipal, a de S. Domingos de Rana, disponibiliza, igualmente, informação adequada sobre a freguesia e o concelho.
      Finalmente, enquanto se aguarda a abertura da Casa Sommer, em frente à igreja matriz, que vai funcionar como verdadeiro centro de investigação, a dar azo à elaboração de muitas dissertações e teses de real valia, há a página do município na Internet: www.cm-cascais.pt . Aqui vão, desde já, algumas pistas, dado que, à primeira vista, uma pessoa pode perder-se no emaranhado de janelas que ali se lhe abrem.
      Até é simples: seis temas à escolha apontados logo ao cimo – município, território, família, cidadania, cultura e lazer, emprego. Interessa-nos ‘cultura e lazer’. E essa janela abre-nos novas perspectivas: Arquivo Histórico, Bibliotecas, Museus, Património Histórico e Cultural, por exemplo. A hipótese História constitui brevíssima síntese; a Livraria Municipal, ainda que proporcione já algumas pistas, está a reservar-se para o que poderá vir a fornecer na Casa Henrique Sommer, com a Livraria Digital on line, a ser realidade a partir do Dia Mundial do Livro, 23 de Abril; e no campo Bibliotecas será, de futuro, assaz significativo o papel a desempenhar pela Biblioteca Digital de Cascais, em fase de instalação.
      Dir-se-á também, e esse é um aspecto nada despiciendo, que a equipa de técnicos adscrita a todas essas tarefas trabalha com entusiasmo e inteira disponibilidade, o que muito nos apraz registar.
      Meios, portanto, não faltam. Assim os potenciais utentes os queiram agarrar!

                                          José d’Encarnação
 
Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 133, 30-03-2016, p. 6.

domingo, 20 de março de 2016

As comunicações… necessárias!

           Saúda-se, naturalmente, com todo o apreço, as diligências levadas a cabo – e com êxito – pela autarquia são-brasense para dotar a vila de infra-estruturas rodoviárias consistentes e capazes de bem servir a população. A variante que por completo contorna o núcleo urbano facilita a circulação, evita a sua travessia por quem se dirija a outras paragens e S. Brás pode mui justamente orgulhar-se disso.
            Por conseguinte, a nível de vila estamos bem servidos. É altura, agora, de se começar a olhar para o interior e, também aí, estão em curso planos sistemáticos de limpeza e reabilitação de caminhos, o que é de muito louvar, atendendo a que só se fomenta comunidade se houver facilidade de deslocação.
            Contudo, ao apelar, no título desta crónica, para a necessidade de comunicações aqui, não é a essas que me quero referir, mas sim às do concelho para o exterior ou, dizendo de forma mais aliciante, do exterior para o concelho. Para norte, mantemos as típicas curvas do Caldeirão e não há como fugir-lhes. Para as bandas de Tavira, a estrada da serra está muito melhorada e faz-se bem. Para Loulé, continuamos como há décadas atrás, mas também não haverá muito a mexer. No que concerne à ligação à A22, é que a porca torce o rabo, porque – queiramos ou não – uma ida a Faro, quer se faça pela N2 (olha, é mesmo a Nacional 2, quem diria!?...), quer se opte pela EM 523 (pelo Corotelo e por Bordeira), é o cabo dos trabalhos.
            Na Bolsa de Turismo de Lisboa dos começos deste mês de Março, S. Brás esteve representado a contento e bem propagandeou a Feira da Serra, onde, disse-se, a convidada-mor será a inovação. Mas Feira da Serra quer-se com gente e S. Brás quer-se com gente o ano inteiro! E como se vem para cá, se a estação de caminho-de-ferro (ai, o caminho-de-ferro, sonho doirado dos republicanos desde primórdios do século passado!…), fica a quilómetros?!...
            Está no poder o Partido Socialista; a maior parte das câmaras algarvias têm presidência socialista. Não é de aproveitar a oportunidade para se unirem e pugnarem pela urgente revitalização do caminho-de-ferro, como excelente alternativa à 125, e pela criação de carreiras que – no caso de S. Brás – façam o trajecto a Faro ou a Loulé, em coordenação com os horários dos alfas e dos intercidades? E as estações dessa linha ferroviária costeira são ‘coisa’ que se apresente ao nacional, quanto mais ao estrangeiro?! Vim, há tempos, num alfa de Lisboa para Loulé: carreira para a vila? – ná! Táxi para a vila? – Ná! Até Silves, que é cidade, tem estação que nem lembra ao diabo, pois nada tem e o diabo nem sequer lá pensa em ir porque… não há lá ninguém para tentar!...

                                                              José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz nº 232, 20-03-2016, p. 11.

 

Liga de Amigos do Hospital de Cascais aposta na humanização

             Foram empossados a 1 de Fevereiro último, para um mandato de 4 anos e por 90% de votos, os novos órgãos sociais da Liga de Amigos do Hospital de Cascais – Dr. José de Almeida, IPSS [LAHC], eleitos na assembleia-geral de 27 de Janeiro.
            A LAHC vem na sequência da Liga de Amigos do Centro Hospitalar de Cascais, que, no entanto, em 2011, precisou de se adaptar às normas legislativas entretanto promulgadas e daí que tenha assumido o carácter de Instituição Particular de Solidariedade Social, respondendo, por isso, perante o respectivo Ministério.
            Tem sede no piso 0 (recorde-se que o piso de entrada é o 2), do Hospital Dr. António José de Almeida; o contacto por correio electrónico pode ser feito através do endereço ligadosamigosdohospital.cascais@hospitaldecascais.pt, tem página no facebook e está em fase de reformulação a página www.lach.pt, que em breve estará disponível.
Vladimiro Martins e Celeste Pereira
            Dado o importante papel que uma liga de amigos detém num hospital, quisemos conversar com dois dos elementos da Direcção: Celeste Pereira, enfermeira aposentada, que já conhecíamos desde os tempos do Hospital Ortopédico de Carcavelos, e Vladimiro Martins. Dessa conversa nos fazemos eco.

Um exercício de cidadania
            Assim, dir-se-á, em primeiro lugar, que qualquer pessoa, maior, pode candidatar-se a ser membro da LAHC, sendo proposta por um dos membros. Paga a módica quantia de 25 euros por ano.
            Caso deseje integrar o grupo de voluntários, será acolhida (ou acolhido, entenda-se) por uma psicóloga, com quem estudará as suas características, de modo a determinarem-se as funções para que se sente mais vocacionada e estará dois meses em formação, para se inteirar, como se compreende, das valências em que a sua acção poderá ser mais compensadora.
            Uma das preocupações da nova Direcção é, nomeadamente, a de promover acções de formação sistemáticas: gestão do stresse, suporte básico de vida, relacionamento com o utente – são, a título de exemplo, alguns do temas a abordar. Mas também há que pensar em «códigos de conduta», «princípios e valores»…
            Sublinhou-se muito o facto de esse trabalho voluntário dever ser encarado não como mera «ocupação de tempos livres», mas sim como verdadeiro exercício de cidadania, é um dever cívico de todos ajudar os mais frágeis. Por isso, aliás, o voluntariado é, hoje, altamente tido em consideração na análise dos currículos profissionais, porque, no caso, em apreço, do voluntariado em ambiente hospitalar, é deveras notável a experiência que se adquire nos mais diversos domínios, mormente social e psicológico, sem falarmos já no enriquecimento humano que faculta.
            Um aspecto também insistentemente focado foi o de o voluntário não vir roubar postos de trabalho. A sua função é complementar, de apoio ao doente. Um exemplo: é bem conhecido o difícil relacionamento das camadas mais idosas da população com as novas tecnologias, e para tudo, no hospital como noutras instituições, é preciso abeirar-se de uma máquina e carregar no botão certo, quando há tantos botões pela frente!... Para isso existe o voluntário.

O hospital não é um lugar de morte
            Outra ideia-base que se sublinhou foi a de o hospital já não ser visto, felizmente, como um lugar de morte: entrava-se no hospital para morrer! Hoje, a passagem pelo estabelecimento hospitalar é cada vez mais efémera, porque muitos tratamentos se fazem em ambulatório. Também aí – até porque, por exemplo, a valência materno-infantil do Hospital Dr. António José de Almeida abarca não apenas o concelho de Cascais mas igualmente o de Sintra – o papel da LAHC pretende ser activo: no acompanhamento externo do doente e não apenas em ambiente hospitalar. Nasceu um bebé: apoia-se a mãe, sobretudo se o foi pela primeira vez e não tem experiência; mas… quando saem, para onde vão? Que ambiente as espera? Têm roupinha para os primeiros tempos? Leite, papas?...
            Urge humanizar a relação do doente com as instituições que lhe prestam cuidados de saúde e essa é uma das metas a alcançar. Por esse motivo, a Direcção – para além das actividades que a LAHC já mantém com outras entidades ligadas à saúde (recorde-se o apoio que dá ao Berçário de Matarraque) e à assistência – está disponível para entabular conversações com a Santa Casa da Misericórdia de Cascais, com os responsáveis pelo banco de voluntariado da Câmara e outras irmanadas neste espírito de serviço… E todos não seremos de mais para levar a cabo tão nobre missão!
                                                       José d’Encarnação

quarta-feira, 16 de março de 2016

Os autarcas cascalenses que se cuidem! (A propósito de uma dissertação de mestrado)

            Anda o político a fazer os seus contactos para vir a presidir a uma união de freguesias (que é, hoje, o chique: «união de freguesias»!...); fala com este e com aquele; esforça-se para que, na Comunicação Social, haja ecos da sua actividade e, assim, dê nas vistas e ganhe diplomas de excelência e… zás! Vem aí o mestrando universitário, carregado de saber, oficialmente orientado por um docente doutorado – e «doutorado» significa que já fez licenciatura, já fez mestrado e é professor encartado… – e deita tudo a perder!
            Não há direito!
            Eu cá processava o mestrando, agora já Mestre, processava o orientador e ia mais longe: processava a própria instituição universitária que ousara pespegar, assim sem mais nem menos, na sua douta página de estudos realizados com sucesso, uma dissertação que põe as freguesias, as uniões de freguesias e o concelho pelas ruas da amargura. Há que protestar! Ou… rir!
            Pois é mesmo isso – rir – o que apetece, no que concerne à dissertação de Mestrado em Administração Pública, aprovada por digno júri e de 81 páginas disponibilizadas na Internet, certamente após nela terem sido introduzidas as correcções exigidas aquando  da defesa.
            O objectivo era saber se o Município de Cascais, em relação ao Estado e à sociedade civil representava o papel de «ponte», se se assumia «enquanto “fórum” conciliador» e se «tem vindo a expandir o seu potencial». Não sei ainda bem o que isto quer dizer e como se detecta, mas, por agora, no âmbito do apelo aos autarcas para que se cuidem, transcreverei algo do que pode ler-se

O Sr. Carlos Carreiras
            Quanto à «posição de Cascais à união de freguesias» [sic], explica-se (cito textualmente):
            «O Presidente de Cascais o Sr. Carlos Carreiras apresentou um comunicado à população, onde nos diz que o Concelho de Cascais apresentou a sua própria proposta de reforma administrativa tendo em conta a “excecionalidade deste concelho”» (p. 58).

S. Domingos de Rana: Maria Gonçalves
            «Com a eleição de Maria Gonçalves, deputada do PS em 2013, observa-se que a freguesia adotou novas políticas para estar mais presente na vida da população residente. Pois, esta presidente realiza passeios e bailes com a população reformada da freguesia (estando presente em todos estes eventos), adota políticas para ajudar as famílias mais carências [sic] da freguesia, como é caso das bolsas de estudo ao ensino superior» (p. 60) e «disponibiliza também Reuniões dos Alcoólicos Anónimos, Coro Vox Laci e Ginásio XL- Manutenção & Cardiofitness» (p. 61).

A paróquia de Alcabideche
            História: «A paróquia de São Vicente de Alcabideche diz respeito ao final do século XIV, o mais antigo livro de atas da Junta de Paróquia, conservado no cartório da igreja, remete a sua conceção, em novas matrizes, para 26 de setembro de 1841, fato que parece derivar da lei datada do ano anterior, edificando [sic] que a presidência destas juntas era da responsabilidade dos párocos» (p. 61).

Cascais – Estoril: António Soares
            «Com a eleição de António Soares, deputado do CDS-PP em 2013, tal como nas freguesias anteriores, esta também tenta estar presente na vida das populações residentes. Pois, observamos que são realizados vários encontros de cariz cultural, tal como na freguesia anterior, verificamos que os eventos realizados são mais centrados para a população sénior, pois os eventos que mais de [sic] destacam são exposições. Quanto às políticas adotadas pela junta de freguesia para ajudar as pessoas mais carenciadas da população residente da freguesia, tal como na junta anterior não nos foi disponibilizada qualquer informação sobre o assunto» (p. 66).

Conclusão:
            «Em suma, não podemos afirmar que o concelho de Cascais é um município que está a caminhar para fazer a ponte entre o Estado e a sociedade, somente a freguesia de São Domingos de Rana o demostra [sic] no concelho» (p. 67).
                                                                José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 131, 16-03-2016, p. 6.

terça-feira, 15 de março de 2016

«Família» foi tema na revista da Estoril-Sol

             Penitencio-me por ainda não ter feito uma referência à mais recente edição da revista “Egoísta”, que houve por tema a Família.
            Tema mui adequado à época em que este número da revista foi lançado – o Natal – mantém, contudo, uma actualidade flagrante, dada «a excelência dos seus conteúdos», que associam, como nos temos habituado, a qualidade temática a uma surpreendente selecção de imagens. Ousadas, as poses de Sofia Aparício; mui eloquente a sequência de uma gravidez em «40 weeks and a mirror»…
            Recorto a informação em devido tempo recebida: 
            «Com edição da escritora Patrícia Reis, a “Egoísta – Família” reúne os importantes contributos de António Mega Ferreira, Lídia Jorge, Inês Pedrosa, João Vilhena, Valério Romão, Blake Little, Miguel Carvalho, Helena Sacadura Cabral, Maria Matilde Matos, Francisco Duarte Azevedo, Ivone Ralha, Luísa Jardim, Rodrigo Saias, Luís Januário, Maria Manuel Stocker, Dulce Maria Cardoso, Luís Barreira, Rita Ferro, Tiago Figueiredo, Maria João Gonçalves, Maria do Rosário Pedreira, Tânia Ganho e Sophie Starzenski.»
            A esse prestigiado elenco de autores, a possibilitar uma sempre necessária reflexão sobre tema tão premente, devem acrescentar-se as oportunas considerações introdutórias do director da revista, o Dr. Mário Assis Ferreira, que cita, a dado passo, Agustina Bessa-Luís:
            “Eu acho que não há inteligência sem coração. A inteligência é um dom, é-nos concedida, mas o coração tem que a suportar humildemente, senão é perfeitamente votado às trevas”.
            Para concluir que, na verdade, é assim:
            «Coração e inteligência, qual panaceia da luz que se contrapõe às trevas, eis o contemporâneo paradigma em que se funda a estabilidade da relação familiar».
            Cada número de «Egoísta», que comemorou em 2015 o 15º aniversário e que conta no palmarés das suas 61 edições 70 prémios nacionais e internacionais, constitui, de facto, suculento repositório, que religiosamente importa coleccionar.

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, 15-03-2016:

Um artista sérvio na galeria do Casino

             Está patente até ao próximo domingo, dia 20, na Galeria de Arte do Casino Estoril, a exposição a que o seu autor, Branislav Mihajlovic, decidiu dar o título de “Caminhos”.
            Trata-se, na verdade, de uma exposição notável, que não deixará de causar mui agradável surpresa aos que aproveitarem estes últimos dias para uma visita, na medida em que o sérvio Branislav Mihajlovic, natural de Belgrado (1961), não apresenta apenas pinturas, mas sabe juntar à tela objectos – a chamada «técnica mista» – que lhe dão realce e emprestam ao conjunto, pela sua originalidade, uma invulgar sugestão de maravilha.
            Aquele quadro («Caminho de ferro IV»), de linhas de caminhos-de-ferro que se cruzam e se perdem no infinito é, por exemplo, prenhe de simbolismo e não podemos passar por ele sem nos determos longamente.
            Em «Caminhando sobre a água», as duas sandálias postadas em baixo, são a imagem perfeita duma hesitação: vou tentar, ou não, a travessia sobre este pego azul ornado de poldras dispersas?…
            Mihajlovic fixou residência definitivamente em Lisboa a partir de 1992.

                                               José d’Encarnação
Publicado em Cyberjornal, 15-03-2016: http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&view=article&id=2055:um-artista-servio-na-galeria-do-casino-estoril&catid=22:artes-plasticas&Itemid=30
Caminho de ferro IV


Caminhando sobre a água

À conversa com… José d’Encarnação

Nota prévia
            Teve o Executivo Camarário de S. Brás de Alportel, minha terra natal, a gentileza de me convidar para presidir à Comissão das Comemorações do 1º Centenário de Elevação a Concelho, que se realizaram, com muito brilhantismo, de 1 de Junho de 2014 a 1 de Junho de 2015. Dei na ocasião uma entrevista, de cuja publicação só agora me apercebi. Permita-me, Amigo, que partilhe consigo o que então disse e vem na pág. 2 de São Brás Municipal, nº 3, Outubro de 2014.

Ø      Como descreveria em poucas palavras o que significa para si este Centenário do Município de São Brás de Alportel?
            Uma velha senhora que soube, ao longo de cem anos, acumular experiências e que encara agora o seu futuro e o dos seus descendentes com um entusiasmo juvenil, sonhando transformar o seu habitat num éden de leite e mel…

Ø      Uma memória que gostaria de destacar?
            O extraordinário convívio com os mais velhos, em criança, não apenas com meus avós mas também os vizinhos que muito me acarinharam e me ensinaram (todos!) as coisas simples da vida: a não ter medo dos calos nas mãos; a varejar a azeitona, a amêndoa e a alfarroba; a identificar o sete-estrelo e todas as constelações; a andar de burro; a acarrear água num poço de nascente rala; a saborear pela manhãzinha os figos melosos da figueira de dois-à-folha; a não ter medo dos lobisomens cujas histórias ouvia à lareira; e a saber que aquelas ruínas, em Estói, quando se ia para Olhão, eram «coisas do tempo dos Moiros»!...

Ø      Mas a que sabem as memórias?
            Um figo seco longamente chupado à sorrelfa de minha avó materna. Ainda o guardo na boca – parece – qual testemunho de um tempo sem tempo, em que estava totalmente desperta a minha capacidade de me maravilhar com um quotidiano singelo e terno.         

Ø      Como historiador, considera-se um homem de passado ou de futuro?
            Nem um nem outro. Quero ser um homem do presente. Que procura acolher de bom grado o que vai aprendendo e que, serenamente, alimenta a vontade de vestir de cores alegres o momento que lhe é dado viver.

Ø      Que mensagem gostaria de deixar aos jovens, os homens do próximo centenário?
            Amigo: saboreia a vida, aproveita todas as oportunidades, pois que nada acontece por acaso. Não queiras assentar praça em general: é errando que se aprende, é fazendo que se ganha experiência. E, sobretudo, planta orquídeas no jardim do teu pensamento e não cardos; o pensamento comanda a vida e, se pensares que não consegues, não vais conseguir mesmo; se, ao invés, achares que és capaz, podes não conseguir hoje, mas… vais conseguir!

Sentir o papel do livro, um prazer que se esvanece…

              Escreveu-me o muito prezado Colega e Amigo Silva Pina, a 24 de Janeiro de 2014:
            «Meu caro, já reparou nos novos catálogos de livros das editoras internacionais? Livros Normais, em papel, de 90 a 120 euros; livros em ficheiro que permite uma única impressão em papel branco entre 50 a 75 euros; ficheiro tipo ebook 20 a 30 euros. As bibliotecas, devido a este aumento tremendo de preços, começam a emprestar ebooks. Experimente ver nas bibliotecas, talvez o meu amigo faça uma crónica sobre este tema. Cada vez mais a tendência ocidental é de termos uma cultura elitista. Eu não consigo comprar um livro técnico por 90 euros, pelo que não me resta outra hipótese senão o formato digital».
            E recebi de novo, creio que pela quarta vez, um excelente vídeo – http://www.youtube.com/embed/Q_uaI28LGJk a fazer a publicidade de um produto que não carecia de nenhuma das modernas atenções, como verificar se tem bateria (porque não trabalha a bateria), ou se há acesso à rede da Internet (porque dela não carece)… Enfim, tão bom, tão bom e tão despojado das exigências a que hoje estamos cativos que, pouco a pouco, nos cresce irresistível desejo de… ir comprar! No final da apresentação, descobre-se a identidade desse precioso objecto: o livro… em papel!
            Muita gente confessa: «Não há como sentir o toque das páginas! É como que uma volúpia… Depois, tu voltas atrás num ápice e dá-te na veneta passar dez páginas e passas. E quedas-te, pasmado, naquele parágrafo de um saber profundo. E não ficas com a preocupação de estar a estragar a vista e não vociferas «O diabo do tablet já quase não tem bateria e está lento como burro cheio de lazeira», «Olha, agora bloqueou, o alma-do-diabo!...».
            Tem, pois, inteira razão o meu Amigo Silva Pina e há que fazer uma campanha para se conseguirem edições «técnicas» mais acessíveis a quem delas precisa.
            Confesso que muito me facilita a vida ter uma quantidade infinita de livros antigos e da minha especialidade disponibilizados na Internet, mormente por iniciativa da Google; eu próprio não hesito em disponibilizar os resultados do que vou investigando e escrevendo. Mas também confesso que, muito amiúde, dou comigo a pensar em relação aos textos que só têm versão digital: «Eu devia pensar em fazer com eles um livro!».
            Sim, a edição em papel equivale ao corte de umas tantas árvores e lá estamos nós a matar o ambiente!... Pergunto-me, porém, se é mesmo o papel gasto em livros o principal responsável pelo rápido e progressivo desaparecimento da floresta original. Será?

                                                           José d’Encarnação
 
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 681, 15-03-2016, p. 12.

sábado, 12 de março de 2016

O falar, património... móvel?

             De acordo com as regras, o falar de uma região deve enquadrar-se na classificação de «património imaterial». Por isso, em todo o sítio com alguma identidade se procura preservar esse falar típico, quer por se tratar de palavras próprias, quer por a palavras gerais se atribuir aí um sentido específico.
            Ao recordar frases e termos da minha infância, tenho procurado deles me fazer eco nesta coluna; hoje, porém, surgiu-me uma dúvida teórica: não poderá ser o falar um património «móvel»?
            Trata-se, evidentemente, de uma pergunta capciosa, a jogar com o facto de serem património móvel os objectos; contudo, pôs-se-me a questão, ao recordar um diálogo com meu pai:
            ‒ Ó pai, sabe do Benfica? (‘Benfica’ era o nome que invariavelmente dávamos aos nossos cães, em homenagem ao clube).
            ‒ Não sei. Se calhar, foi para aí dar um viajo e já volta.
            Corri aos dicionários: «viajo» não consta! Para meu pai, significava «uma volta», «um giro»…
            Isso levou-me a tentar resolver outra polémica que tenho, por considerar «obrigado!» uma interjeição e, por isso, invariável, não sujeita a determinismos de género. Qual não foi, porém, o meu espanto, quando, consultando o dicionário da Academia, li, na p. 2636, que «obrigado» é mesmo uma interjeição («Exclamação que exprime agradecimento». E qual é o exemplo que dão? Este e só este: «‒ Obrigada, disse a senhora». Pasmei!

                                                      José d’Encarnação

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 206, Março de 2016, p. 10.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Auditório da Senhora da Boa Nova teve lotação esgotada

            Já vai sendo hábito esgotarem-se as lotações para os concertos da Orquestra Sinfónica de Cascais. E ainda bem, porque assim se prova quão acertada foi a iniciativa de se lançar mãos a um empreendimento assim, em tempos aparentemente alheios ao apoio às Artes e às manifestações culturais em geral.
            Esgotou, pois, na noite de sábado, 5 de Março, a lotação do Auditório da Senhora da Boa Nova, na Galiza (Cascais), para saborear o Concerto da Primavera, cujo programa incluiu obras muito famosas de dois «emblemáticos compositores russos»: o «Concerto para Piano e Orquestra nº 2 em dó menor – op. 18», de Sergei Rachmaninoff (1873-1943), composto entre o Outono de 1900 e Abril de 1901; e a «Sinfonia nº 4 em fá maior – op. 36», de Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840-1893), escrita entre Março e Dezembro de 1877.
            Ao piano, como solista, esteve o extraordinário virtuosismo de Vasco Dantas, um português de apenas 23 anos, que começou a estudar piano aos 4 e fez a sua primeira apresentação pública aos 6!... Na verdade, se nos encantou a primorosa execução da orquestra, Vasco Dantas arrebatou fortes aplausos, tendo-nos brindado e à orquestra, no termo da primeira parte, com um notável arranjo seu do tema «Parabéns a você», alusivo ao facto de a Sinfónica comemorar o seu primeiro ano de vida. Vasco Dantas: um nome a fixar! Um enorme talento a apoiar!
            A Sinfonia nº 4, de Tchaikovsky, só ouvida! Mesmo um leigo se apercebe de que é de mui difícil execução, a exigir de cada um dos naipes grande domínio da técnica e da arte, devido, de modo especial, à necessária e mui rigorosa sensibilidade aos tempos e à modulação sonora. Delicia-nos o 3º andamento – «scherzo, pizzicato ostinato» – em que os violinos são tocados não com o arco mas sim com os dedos, para dar precisamente o pizicato, a requer atenção exímia e elevado rigor de execução. O contraste assume-se no final, «allegro com fuoco», numa girândola, diríamos, de entusiasmo, em que nos arrebata o toque vibrante da tuba, das trompas, dos trompetes e dos trombones, vigorosamente acentuado pela percussão e muito bem acompanhado pelos fagotes (notável, o desempenho de Catherine Stockwell e também de Tiago Paraíso!).
            Os músicos cumprimentaram-se efusivamente, no final da actuação. E, como eles, sentimos, na verdade, que… o serão valeu bem a pena e que havíamos participado em algo de – que se me perdoe o adjectivo – genial!
                                                              José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, 07-03-2016:

quinta-feira, 3 de março de 2016

Craveiros-do-ar

             Não me canso. Por mais que diariamente os remire e acaricie, a sua vida deixa-me perplexo. Como logram sobreviver assim pendurados, sem terra nem água de rega?!... Sempre viçosos, já lhes roubámos filhotes, olham serenamente para o céu. Deixam-se baloiçar tranquilos, ao bafejar das brisas e, uma vez por ano, brindam-nos, sorridentes, com mimosas flores minúsculas…
            Que milagre vos sustenta, craveiros-do-ar?
            «Olhai os lírios do campo! Como eles crescem! Não trabalham nem fiam! Pois Eu vos digo: nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles!...» (Mateus, 6, 28-29) – soa-me inevitável, o eco dessa Voz vinda do fundo dos tempos!...
            Por mim, eu ousaria sugerir:
            ‒ Mestre, fale dos craveiros-do-ar! Não são tão efémeros como os lírios e a lição seria mais eloquente ainda, Senhor!
            Transcorremos as jornadas em lufa-lufa constante, água a esgueirar-se-nos por entre os dedos, «Vamos, depressa, não há tempo a perder, mexe-te!»…
            E os craveiros-do-ar, imperturbáveis, vivendo do ar, vêem a nossa correria e nada precisam de dizer. A sua presença basta para nos recordar outra Presença, paterna, eficaz, a instilar confiança – imperturbável também!
                                                              José d'Encarnação

Publicado em Boletim Salesiano, mar/abr 2016, p. 34
Craveiro-do-ar em floração

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quarta-feira, 2 de março de 2016

Teatro, palco da vida

             Realizou-se, em 2001, o III Festival de Teatro de Tema Clássico, de que a Liga de Amigos de Conimbriga (muitos dos espectáculos ocorreram nessa cidade romana) editou um catálogo, de 36 páginas, com textos de António dos Santos Queirós e José Ribeiro Ferreira. Destinado, de modo especial, ao público escolar, o festival mostrou como as angústias e o pensar de outrora continuam, afinal, bem vivos no nosso quotidiano.
Conimbriga, Maio de 2001, uma cena d'«As Troianas», pelo Grupo «Balbo» de Cádis
            Uma das peças representadas foi «As Troianas», de Eurípedes, interpretada pelo Grupo «Balbo» de Cádis, peça que exalta «os grandes sofrimentos que viveram, como já dizia Homero, “as mulheres de belas tranças”». E dela, além da «distribuição das figuras», apresenta-se no catálogo um resumo do argumento, explicitando que «as mulheres dos troianos mortos na guerra aguardam para ver que destino as espera, enquanto a sua cidade está prestes a consumir-se nas chamas». A figura principal é a rainha-mãe, Hécuba, a quem um mensageiro vai trazendo as novidades: os chefes do exército inimigo cometem atrocidades umas atrás das outras, até que ele próprio executa a ordem de morte do netinho de Hécuba, «despenhando-o das torres de Tróia». O choro desesperado de Hécuba junta-se, pois, no final, ao estrépito dos edifícios a desmoronarem-se.

«As Troianas» em Cascais
            Esta tragédia, clássica, foi também levada à cena pela companhia Palco 13, no Auditório Fernando Lopes Graça, em Cascais; por isso a ela me quis referir, pois tive ensejo de assistir ao último espectáculo, a 20 de Dezembro, p. p. A encenação coube a um ex-aluno da Escola Profissional de Teatro de Cascais e o elenco era constituído maioritariamente, se bem compreendi, por colegas seus.
            Apreciei o espectáculo, quer do ponto de vista teatral no seu conjunto (encenação, interpretação, movimentação de actores, cenografia…), quer no que respeita à sua acutilante oportunidade, uma vez que as sangrentas guerras que estão a travar-se – por sinal, num ambiente geográfico muito próximo do que foi o da Tróia antiga – provocam cenas tão ou mais lancinantes do que aquelas que Eurípedes imaginou, até porque, hoje, a atrocidade é ainda maior.
            Mas eu escrevi «se bem compreendi». É que se me afigura que poderia ter sido facultada aos espectadores uma só folhinha que fosse, com uma síntese do argumento e, também, com a distribuição dos papéis – para que constassem os nomes de quantos tão briosamente ali puseram de pé uma peça nada fácil pelo enorme dramatismo que encerra. E todos andaram muito bem. Só não sei quem eles eram. E, se não tivesse um mínimo de informação sobre Eurípedes e sobre a Guerra de Tróia, tudo aquilo poderia ter sido para mim algo de inexplicável.
            Dir-se-á: tudo é feito com pouquíssimos recursos. De acordo. E posso estar errado; creio, porém, que, apresentado o projecto dessa folha a uma entidade pública ou privada, a troco de publicidade aí inserida (mais não fosse do género «a edição desta folha só foi possível graças ao apoio de…» e vinha o logótipo!), certamente se disponibilizariam os parcos euros que tal iria custar.

O Teatro Maria Helena Torrado
            Sob a alçada do Bairro dos Museus, o Auditório Fernando Lopes Graça tem acolhido estas propostas, nomeadamente da companhia Palco 13. Louve-se a iniciativa, ainda que, a meu ver, maior promoção há de requerer-se, para que as sessões continuem a estar esgotadas sempre que nova peça volte a estar em cena.
            E essa preocupação em fomentar o gosto pelo teatro levou-me a recordar outra sala de Cascais, até porque me saltou, outro dia, do meio dos papéis, um recorte do Jornal da Região de 9-7-2003, em que vem a foto de Ricardo Carriço e de Maria Helena Torrado, aquando da sua tomada de posse como membros da Academia de Letras e Artes. Criaram ambos, na Rua Freitas Reis, um espaço, que tem hoje o nome de Helena Torrado, em homenagem à escritora que tão cedo nos deixou. Aí tive ocasião de ver, em Junho de 2012, a peça musical infantil «Mãe Natureza», um original da própria Helena, representado pelo Grupo de Teatro Confluência. Que se prevê agora para lá?
            É o teatro, palco da vida, a Vida em palco. Uma forma de mais facilmente consciencializarmos o que nos está a acontecer. Por isso, mais teatro… precisa-se!

                                                                      José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 129, 02-03-2016, p. 6.

Post-scriptum (a 3 de Março às 19:18 h, incluído como comentário infra): Chamaram-me a atenção - e bem - para um lapso: o espectáculo «As Troianas» não foi da companhia Palco 13. Cá está a falta de informação de que eu me queixo no texto. Se tivesse, porém, ido à página da CMC, teria visto - e para ela, mui gentilmente, me remeteram e eu remeto agora, com um agradecimento aos responsáveis da Palco 13 pelo esclarecimento: http://www.cascais.pt/evento/troianas-choro-de-uma-guerra .

terça-feira, 1 de março de 2016

Os Charcos, o Lince, Camarões & Cia.

             Uma pedrada no charco! Usa-se a expressão, como é sabido, para explicar que algo de novo surgiu, inesperado, a mexer a normal quietude dos charcos, onde apenas as libelinhas vão, mui rápidas, ao de leve poisando, as rãs passam o dia pachorrento ao sol e só de quando em quando, e apenas nalguns mais duradouros, se enxerga esquiva cobrinha coleante…
            Não gostam de pedradas os poderes constituídos e, se de charcos perguntarmos aos nossos amigos, são capazes de também torcer o nariz, que logo se pensa em ‘mosquitame’ e bichezas do género...
Triops vicentinus
            Eu cá gosto dos charcos – pela sua quietude e por suspeitar de vidas inúmeras lá dentro… Já gostava, mas agora passei a gostar mais, depois de, no programa da Antena 1 “José Candeias – Hà Conversa”, de 11 de Fevereiro, Artur Lagartinho ter dado conta do que era o projecto Life Charcos, que, com o apoio de programas europeus, a Liga de Protecção da Natureza (LPN), em colaboração com algumas autarquias, está a levar a cabo na costa sudoeste, desde Sines a Sagres. A ideia é consciencializar as populações da importância dos charcos temporários mediterrânicos, pois são o habitat de muitas espécies. Referiu-se, de modo especial, à existência aí do «triops vicentinus», uma espécie de camarão girino, crustáceo que apenas existe nos charcos desde Vila do Bispo até Faro e que sobrevive enterrado 7 anos sem água! No fundo, a preservação desses charcos contribui para a biodiversidade.
A lince Myrtilis acabada de soltar, em Fevereiro de 2016
            Eu divulgara, no dia 8, a notícia de que «Myrtilis», uma lince fêmea, fora largada nos arredores de Mértola, no âmbito do programa de preservação desta espécie. E logo Eugénio Sequeira, da LPN, comentou:
            – Depois de solto, tem que haver ecossistemas que sejam próprios.
            Assim, em 2011, o projecto “Recuperação do Habitat do Lince Ibérico no Sítio Moura/Barrancos” (2006/2009) foi distinguido, por isso mesmo, pela Comissão Europeia como um dos 6 “Melhores entre os Melhores Projectos LIFE da Europa”. E para que continuemos a ter abetardas, falcões e outras espécies, importa combater a desertificação e, por estranho que pareça, manter os charcos, também eles alfobre da indispensável biodiversidade!
            É por isso que me sinto cada vez mais contente quando vejo melros, toutinegras, pardais e rolas saltitarem de ramo em ramo na cameleira, na romãzeira, na buganvília, no ficus, no aloés e no pitósporo do meu jardim…
                                                                     José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 680, 01-03-2016, p. 12.