segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A voz do Povo e a régua e esquadro dos teóricos

             Quando – já lá vão 648 anos!... – el-rei D. Pedro ouviu os homens-bons de Cascais e, vendo que era serviço de Deus e dele, houve por bem e mandou que o dito lugar ficasse «isento da sujeição de Sintra», estava-se no princípio daquilo que viria a ser uma das características fundamentais da nossas organização política: o municipalismo.
            Inspirara-se, é certo, no modelo romano – que também os Romanos cedo compreenderam a imprescindível importância do poder local! –, mas os bons resultados estiveram à vista e, durante o período da organização do território (nunca podemos esquecer que somos uma das nações mais antigas da Europa!), para que a terra rendesse e fosse defendida de alheias incursões, houve cartas de foral distribuídas a rigor, salvaguardando com regras precisas o que era poder do rei e o que pertenceria à iniciativa local.
            Vem isso a propósito – como logo se compreende – da divisão a regra e esquadro feita num qualquer gabinete da capital por uns senhores teóricos, que devem ter lido muitos livros mas, ao que parece, pouco sabem de História e quase nada da vida dos povos, da psicologia das multidões (para usar a expressão de Gustave Le Bon). E lembrei-me de imediato o nosso «Frei Luís de Sousa», de Almeida Garrett: «Voz do povo, voz de Deus, minha senhora mãe: eles que andam tão crentes nisto, alguma coisa há-de ser». Sim, claro, também neste caso da extinção ou junção de freguesias «alguma coisa há-de ser». Só com uma diferença em relação à frase da Maria: há-de ser lá de cima, dos tais gabinetes sem janelas para a realidade, e não do Povo. Sim, Povo com maiúscula, aquele que sabe dar a volta por cima, que estudou a Vida, que vem comendo o pão que o Diabo amassou…
No programa «A Vida dos Sons», que passa na Antena 1, aos sábados, das 9 às 10, repete-se, no genérico, semana após semana, a frase de José Saramago pronunciada na Academia Sueca, quando, em 1998, ali recebeu o Prémio Nobel: «O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever». Era o avô, analfabeto. Pois cá para mim, os senhores da régua e do esquadro, dos gabinetes sem janelas para a rua, são capazes de saber ler (escrever já não acredito muito…), mas só leram as teorias e não ouviram nunca a voz do Povo. Tenho pena!
Bem fez, portanto, a Presidência da Câmara Municipal de Cascais quando, no vigoroso comunicado que emitiu, a 8 de Novembro passado, informou que vai resistir contra a imposição da “insensibilidade, impreparação e incompetência” da Unidade Técnica para a Reorganização Administrativa do Território (UTRAT). UTRAT até é sigla bonita; lida depressa até faz lembrar outros sons… E, se calhar, o que os sobreditos técnicos altamente qualificados de régua e esquadro fizeram soar cá para fora é capaz de ter um som parecido!...
Meninos: aqui, em Lisboa, em Alguidares de Baixo, em Cacela, por todo o País, há – não sei se sabem… – Povo, pessoas, gente que labuta num dia-a-dia cada vez mais penoso. E há juntas de freguesia (parece que ora até nem se lhes pode chamar de ‘juntas’, mas eu nada quero saber dessa nova legislação, a implicar novos logótipos e mais despesa…), juntas que têm centros de dia, que organizam jogos florais, que apoiam as crianças mantendo os parques infantis, que fazem das tripas coração para fomentar comunidade e vizinhança, para que sejam cada vez menos os que têm fome, os que ficam mortos durante três semanas numa casa sem que ninguém disso se aperceba…
Meninos da UTRAT e dessoutras comissões criadas dia após dia: leiam, sim; mas estudem, estudem, oiçam quem já viveu algum tempo e, por isso mesmo, adquiriu experiência. Sabiam que, nas cidades da Grécia antiga (não na actual), havia um Senado constituído pelos maiores de 60 anos? E era a ele que se recorria para resolver situações em que o bem-estar do Povo estivesse em causa? Podem não gostar do Saramago, podem não saber História, mas recordem que, para ser sábio, não é preciso saber ler nem escrever; é preciso ter os pés bem assentes na terra, saber ouvir! E – lembrem-se! – Cascais tem por lema ser «elevado às pessoas» e não aos números, únicos pontos de referência, ao que parece, a que os traços dos vossos régua e esquadro dão importância!

Publicado em Jornal de Cascais, nº 326, 21.11.2012, p. 6.

 


 

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