segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Regressar, dançando, à época medieval

             Multiplicam-se as iniciativas que visam reconstituir a vida na época medieval.
            Ainda me lembro do que foi o pioneirismo da 1ª feira medieval que – por iniciativa das Doutoras Maria Helena da Cruz Coelho e Maria José Azevedo Santos, docentes de História da Idade Média na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – foi levada a efeito, no Largo da Sé Velha, com todo o rigor de pormenores, em Junho de 1992. O ineditismo da proeza e o êxito imediato que arrecadou fez com que, no ano seguinte, houvesse repetição; celebrou-se, este ano, o seu 25º aniversário.
            Depressa a ideia alastrou – por Montemor-o-Velho, por Vila da Feira… E, hoje, praticamente não haverá concelho algum em que se não faça uma Feira Medieval, até porque se criaram grupos, amiúde nascidos de antigos estudantes de História, que se especializaram nessas organizações.
            Em Cascais, conheceu S. Domingos de Rana, este ano, a 2ª edição de uma Feira Medieval, seguida de ceia. E José Fernando Lousada criou, em 2014, um grupo de dança, o Pé de Dança, que tem como objectivo divulgar esse património cultural, que foi sendo bebido em livros doutras eras.
            Festejou, pois, o Pé de Dança o seu 3º aniversário, no passado dia 6, na sede da Associação Recreativa Juventude Carrascalense, de Carrascal de Alvide (Alcabideche – Cascais.
            Antes da ceia, também ela à maneira antiga (com bom panito, azeitonitas a condizer, arroz de miúdos, migas, tudo regado com sangria e vinho tinto no canjirão…), os pares deram um arzinho da sua graça, brindando-nos com vários dos passes de dança ensaiados e que o amigo Lousada ia explicando o que eram: danças de amor, danças de cerimónia, danças de festa… Eu sei lá! O que nos deliciava era não apenas o ar compenetrado dos dançarinos – que têm também neste passatempo a sua forma de realização pessoal e de mui sadia ocupação dos tempos livres – mas a suavidade com que eles evoluíam, a lembrar-nos uma época em que a pressa não era pão quotidiano e o lazer se impunha como forma de condimento às tarefas em que cada um se tinha de afadigar.
            Presentes na ceia cerca de 40 convivas: além dos 20 alunos do Pé de Dança e seus responsáveis, membros da direcção da colectividade, o representante dos Templários de Sintra, Paulo Pimenta (de O Correio da Linha). Coube-me a honra de ser nomeado «padrinho», que mui gostosamente aceitei.                                                                            
 
                                                        José d’Encarnação
O representante dos Templários de Sintra e sua Dama.





Uma das danças. Foto de Paulo Pimenta.


José Fernando Lousada e irmã Filomena

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Viriato Dias Bernardo, jornalista de largos horizontes

             De ascendência alentejana – seus pais vieram de Arronches para Cascais – Viriato Dias Bernardo nasceu nesta vila a 26 de Janeiro de 1929. Por aqui sempre viveu até à morte, que ocorreu no passado dia 2.
            Depois de ter sido funcionário da Câmara Municipal de Cascais e já escrevia na imprensa local, Viriato Dias foi convidado para seguir a carreira jornalística. Ficou com a carteira profissional nº 87 e foi para a delegação de Lisboa do jornal portuense Primeiro de Janeiro, que viria a chefiar.
            Daí seguiu para a informação da RTP, onde exerceu durante muitos anos as funções de responsável pela agenda do Telejornal, tendo desempenhado esse cargo com a grande competência que ele exigia, nomeadamente antes do 25 de Abril, em que importava ter enorme diplomacia perante a Censura.
            A nível local, integrou a equipa do jornal A Nossa Terra e quando a quase totalidade dos redactores saiu, por incompatibilidade com a direcção do Grupo Dramático e Sportivo de Cascais (proprietário do jornal), manteve-se fiel ao grupo liderado por João Martinho de Freitas, que viria a fundar, a 25 de Abril de 1964, o Jornal da Costa do Sol.
            Após a aposentação, regressou às lides da imprensa regional, tendo assumido, a 7 de Março de 1996, a direcção do Jornal da Costa do Sol, cargo que manteve até 1 de Março de 2007. Na mensagem de despedida, a que deu o título de «Até sempre», recordou que pertencera ao «grupo de cascalenses que dotou Cascais com um órgão de comunicação, livre de quaisquer tutelas, pela defesa dos interesses desta região».
Viriato Dias e Carlos Avilez (gentileza de Pepita Tristão, do Cyberjornal)
            Na sua direcção é de registar, durante o mandato de José Luís Judas, o espírito de colaboração que manteve com o Executivo camarário e que o presidente bem aceitou, não se coibindo Viriato Dias, como é natural, de criticar a acção camarária, quando considerava que o devia fazer, por ser essa a missão da imprensa local, nem sempre compreendida pelos autarcas. Um clima de serena compreensão e informação, para que os munícipes se apercebessem com maior evidência dos motivos por que determinadas decisões se tomavam e a razão de ser de outras que estavam programadas para se tomar.
            Foi irmão da Santa Casa da Misericórdia de Cascais e sócio, desde 1954, da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Cascais.
            Recordo o que escreveu, a 17 de Setembro de 1966, a propósito do incêndio da Serra de Sintra em que viriam a morrer 25 soldados do regimento de Queluz:
            «Não poderá haver outro fogo de tão terríveis consequências em matas nacionais, porque irão ser tomadas medidas drásticas. Não se falará mais em falta de dotações ou verbas, porque tal não se pode pôr em equação, quando estão em causa o património nacional, a economia do País e vidas que são a base da Nação».
            O drama por que passámos no Verão mostra que os planos que apontava como urgentes e necessários acabaram por nunca se concretizar. E já lá vão 51 anos!...
            A 22 de Março de 1969 viria a escrever um outro artigo, que deu brado na altura, pelo seu carácter inovador, sobre o aproveitamento turístico da Cidadela de Cascais, uma vez que, já nesses anos, o interesse militar do quartel era escasso. Viriato Dias ousou, pois, propor o seguinte:
            «Um museu oceanográfico, um aquário, um Instituto de Biologia e, paralelamente, uma exposição de assuntos cartográficos no Instituo Hidrográfico [sugerira que tanto esse Instituto como o Aquário Vasco da Gama para ali fossem transferidos] poderiam ser um pólo de atracção para a sede do concelho, que foi berço do turismo em Portugal e à qual estão ligadas longínquas e vultosas tradições marítimas».
            E concluía:
            «A vetusta cidadela, onde, com o rodar dos tempos, se criaria um museu natural de oceanografia – grande, enorme e imperdoável lacuna existente no País – continuaria, assim, a sua função junto ao mar».
            Estava-se em… 1969!
            Um sonho, esse, que as vicissitudes dos tempos nunca ousaram tornar realidade!
            Do homem e do jornalista fica-nos, por isso, a imagem de um cidadão empenhado, que preza acima de tudo a nobreza de carácter, de «antes quebrar que torcer», que privilegia o rigor da informação e manifesta plena disponibilidade para estar activo em prol do bem comum.

                                                                                  José d’Encarnação

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Uma lição de sabedoria política

            Não andarei longe da verdade se referir ter sido uma autêntica lição de sabedoria política o que nos foi dado ouvir por ocasião da apresentação, no Grémio Literário, no passado dia 29, do livro, de Licínio Cunha, Turismo e Desenvolvimento.
Licínio Cunha, Pinto Marques, Vítor Neto, Assis Ferreira e Frederico Annes
            António Teixeira Pinto Marques, o Presidente do Conselho Director do Grémio, deu as boas vindas a quantos enchiam por completo a sala da biblioteca da instituição e manifestou o seu regozijo por, mais uma vez, a sua casa ser palco de tão luzida cerimónia.
Silva Peneda, no uso da palavra
            Foi Silva Peneda o primeiro apresentador. Após ter sublinhado que «resiliência» e «sustentabilidade» são duas palavras que estão na moda, declarou preferir falar de «harmonia na sustentabilidade» e da necessidade de se estabelecerem compromissos com as soluções preconizadas para os problemas que surgem, na medida em que «a essência de qualquer estratégia política é a convergência de interesses». Desconfia sempre de alguém que lhe apresenta «soluções miríficas». Observações a propósito da obra ora vinda a lume e na sequência da temática nela sabiamente desenvolvida. Terminou realçando a elevada «qualidade humana do seu autor».
            Vitor Neto que, tal como Licínio Cunha, exerceu funções de secretário de Estado do Turismo tomou a palavra em seguida, começando por afirmar que «este livro não é um simples livro, é um tratado, um compêndio. Eu já o li, agora vou estudá-lo». O seu autor tem uma visão global do turismo, faz a história do fenómeno turístico não apenas em Portugal, fenómeno que «não é uma soma de prémios do tipo ‘os melhores do mundo’». «Desenvolvimento económico sustentável» é, em seu entender, um dos capítulos mais sugestivos, embora também não seja de menor valia a sua análise de «como é que o Estado tem encarado o turismo» e da avaliação que os governos fazem da importância económica do turismo. «Importa dar consistência àquilo que se conquistou», frisou, a terminar, acentuando a forma simples, a seriedade e a honestidade com que o autor aborda estes assuntos.
            «Um livro que, de facto, marca o turismo», começou por afirmar Mário Assis Ferreira, administrador da Estoril-Sol. Relatou os contactos que teve com Licínio Cunha, então secretário de Estado, quando foi para o Casino e lhe apresentou as novas ideias que tinha intenção de incrementar, designadamente a de tornar o Casino muito mais do que mero local de jogo, mas potenciador de iniciativas culturais nos mais diversos domínios, mas, de modo especial, na Música, no Espectáculo, na Arte, na Gastronomia. «Qual enciclopédia sobre a actividade turística», «trabalho de fôlego» em que não falta o apontar de mudanças e perspectivas, de leitura mui acessível, que apresenta, em anexo, uma série de documentação do maior interesse, desde a Declaração de Manila (1982) à Declaração de Ecoturismo de Quebec (2002). Uma obra de 338 páginas, onde falta, no entanto, uma palavra sobre a grande receita fiscal que advém da actividade dos casinos, mormente se se tiver em conta «a drástica reviravolta conceptual» do seu papel, que ele próprio, Assis Ferreira, «ousou implantar - e com êxito! - nos casinos da Estoril-Sol. Licínio Cunha terá duvidado da possibilidade de tal vir a concretizar-se; o certo é que se concretizou. E concluiu: «Diz Óscar Wilde que se resiste a tudo menos à tentação; que seja a publicação dum próximo livro a próxima tentação de Licínio Cunha».
            O autor agradeceu a generosidade dos apreciadores e se «ninguém é tão velho como aquela pessoa que desistiu de ter objectivos», o certo é que, depois de ter redigido mais de duas centenas de textos, considera que «as novas ideias escasseiam» e que termina aqui o seu «ciclo académico» (recorde-se que Licínio Cunha exerceu, até 2014, as funções de director da Licenciatura em Turismo na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, de Lisboa). Afirmou não ver com bons olhos que o turismo seja encarado como uma moda, efémero como ela é; que a «pegada turística» seja… «uma praga»! O turismo há-de ter em conta «o visitante e a pessoa, o território mais o ambiente», numa estratégia de desenvolvimento sustentável, que considera ser o objectivo principal que o livro prossegue, apelando para que «a ênfase do crescimento seja substituída pela do desenvolvimento».
            A editora da obra é a Lidel, cujo representante, Frederico Annes, aproveitou o ensejo, a finalizar a sessão, para dar conta da actividade desta empresa familiar, que em Março completou 50 anos (vai na 3ª geração), já acolheu 3000 autores de livros por onde muita gente tem aprendido, como é o caso dos livros de Medicina ou do ensino de português para estrangeiros.

                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, 4-12-2017:

À margem de um jantar

             Quando um estudante no final do curso se abeirava de mim para me questionar acerca do que iria fazer, costumava perguntar-lhe o que é que gostaria de fazer. Perante a resposta, havia sempre uma série de «receitas» hauridas da experiência…
            Uma das tónicas mais frequentes era: aparece! Queres trabalhar em Arte? – Frequenta inaugurações de exposições e observa como tudo se processou e não deixes de entabular diálogo com o artista, com o promotor da iniciativa. Gostarias de ser relações públicas de uma entidade cultural? Vê com atenção a agenda cultural do município em que vives e aparece e vê como se faz.
            Ainda hoje é meu princípio procurar aproveitar as oportunidades que me surgem para culturalmente me enriquecer. Com os erros nossos e alheios se vai aprendendo. Custa-me ouvir, na manhã da Antena 1, «O Fio da Meada» monocordicamente ‘lido’ por Susana Moreira Marques, quando deveria ser ‘dito’ e ter alma dentro. Custa-me que não se compreenda que a rádio tem exigências vocais e não se pode dizer aaãã… a todo o momento, antes de se começar uma frase. Aprende-se com a prática.
            A 11 de Novembro, tive o privilégio de partilhar a mesa, no jantar comemorativo dos 30 anos da AMI, com pessoas que, nesse breve tempo de uma refeição, acabaram por me ensinar muito. Com Fernanda Freitas, a jornalista que, durante quase sete anos, teve na RTP 2 o programa diário «Sociedade Civil» (veja-se o texto de Isabel Canha em: https://executiva.pt/fernanda-freitas-empresaria-improvavel/), mas que abraçou de mãos cheias a causa do voluntariado, falei precisamente desse ‘saber ler e contar’, porque ora uma das suas actividades é ler histórias para crianças hospitalizadas. Com o capitão-de-fragata, Maurício Camilo, comandante do navio-escola Sagres, soube que, no regresso do Cabo da Boa Esperança, se navega à vista de costa e é precisa uma atenção redobrada e disse-me do que era esperar por vento de feição na zona das calmarias... Com Maria do Céu Garcia, mãe de Diana Gomes da Silva, que é piloto de aviões comerciais e faz acrobacia aérea, fiquei a saber que, por iniciativa da filha, todas as companhias aéreas incluem agora módulos de acrobacia no curso de pilotos, porque aí aprendem a navegar numa emergência sem aparelhos; e contou-me que o desastre do avião da Air France, que caiu no Atlântico, no meio de uma tempestade, em 31 de Maio de 2009, poderia ter sido evitado se o piloto tivesse essas noções de acrobacia, que permitem aperceber-se melhor se o aparelho está a descer ou a subir… Quem diria? Realmente, vendo a Diana a fazer mui arriscados ‘loopings’ no seu avião vermelho, para além do aplauso, só nos apetece exclamar: «Esta menina é louca!». Mas não é.

                                                                                  José d’Encarnação
 
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 720, 1 de Dezembro de 2017, p. 11.
Diana Gomes da Silva e o seu avião vermelho, de acrobacias!
 

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Faleceu o Padre Amador dos Anjos

             Com a provecta idade de 98 anos (completaria 99 a 25 de Janeiro) foi hoje a sepultar, no cemitério de Alcabideche (Cascais), o Padre Amador dos Anjos, que viveu, durante os últimos dez anos, na residência sénior dos Salesianos de Manique.
O Padre Amador dos Anjos, ladeado pela Doutora Manuela Mendonça,
presidente da APH, e pelo Doutor Armando Martins, proponente da homenagem
            Realcei, em Julho passado, a homenagem que então lhe foi prestada pela Academia Portuguesa da História, ao nomeá-lo académico honorário, a galardoar assim o seu meticuloso labor de escrever a história da Congregação Salesiana (hoje, Fundação Salesianos) em Portugal, Cabo Verde, Moçambique e Timor. Uma obra notável no âmbito da educação da juventude, nomeadamente a mais carenciada, que hoje se revê nos seus antigos alunos e nos milhares de estudantes que frequentam as suas escolas – no Porto, em Mogofores (Anadia), em Vendas Novas, em Évora, nas Oficinas de S. José de Lisboa (relevante marco no ensino das artes gráficas em Portugal) e, também, no concelho de Cascais, onde detém a Escola Salesiana do Estoril e a Escola Salesiana de Manique.
            Particularmente vocacionados para o ensino técnico-profissional – que, por via das absurdas reformas levadas a cabo por sucessivos governos que o liquidaram e hoje se quer recuperar – os Salesianos, como o Padre Amador dos Anjos consignou em livro, continuam a deixar obra válida, no campo da educação juvenil, pondo em prática o chamado Sistema Preventivo, que preconiza a presença assídua dos educadores junto dos educandos e onde, para além da leccionação oficialmente obrigatória, se dá lugar ao teatro, à música e à prática desportiva, no intuito de uma formação completa. Disso é reflexo, por exemplo, a Juventude Salesiana que, no Estoril, deu cartas e formou campeões no hóquei em patins nacional.
            Como já assinalei em Julho, tive a honra de ser aluno do Padre Amador dos Anjos, em Manique, na disciplina de Literatura Portuguesa no ano lectivo de 1962-1963, no meu 6º ano dos Liceus. Ainda guardo religiosamente as folhas dactilografadas com os exercícios de análise literária que ele, na sua letra miudinha, me corrigiu e anotou, a vermelho. Com ele aprendi, de facto, muito do que hoje sei na arte da escrita e da interpretação textual.
            Com a presença de cerca de uma quarentena de amigos, antigos alunos, confrades e Filhas de Maria Auxiliadora, concelebraram a missa cantada, de corpo presente, dezoito sacerdotes salesianos, sob a presidência do provincial, Pe. José Aníbal Mendonça. À homilia, o provincial salientou os momentos mais significativos da biografia do ilustre defunto e leu depoimentos de seus amigos e companheiros da sua longa e luminosa caminhada. No final, usou da palavra o Padre David Bernardo, que deu conta da serenidade com que o Padre Amador se preparara para a partida, salientando um dos aspectos que mais o cativou: a perene atitude de agradecimento que tinha para com todos os que nestes últimos tempos lhe dispensaram cuidados.
            Que descanse em paz quem, tão diligentemente, soube espalhar o pensamento pedagógico e sacerdotal de D. Bosco, o insigne fundador, em finais do século XIX, da Obra Salesiana. Tempo é não de tristeza por quem parte, mas de conforto e reconhecimento pelo exemplar testemunho que nos legou.

            Cascais, 4 de Dezembro de 2017

                                                                                  José d’Encarnação
P. S.: O corpo do ilustre sacerdote será oportunamente trasladado para o cemitério da Galiza (Estoril), onde repousam os restos mortais dos membros da Família Salesiana falecidos no concelho de Cascais.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

A Arte e os seus múltiplos caminhos – na Galeria do Casino Estoril

            Encerrará a 10 de Janeiro a exposição inaugurada, com grande afluência de público, no passado dia 25 de Novembro, na Galeria de Arte do Casino Estoril.
            Foi o XXXI Salão de Outono, este ano voltado para o pequeno formato, porque, na verdade, os grandes quadros, hoje, há pouco espaço para eles e sempre é um gosto ver como o artista, em reduzida tela, tanto nos pode transmitir de emoções.
            31 anos constitui, na verdade, o consagrar de uma aventura que tem dado os seus frutos e que se notabiliza por essa provecta idade. Sim, para uma iniciativa deste género 31 anos são bem reveladores de uma enorme tenacidade e de intenso amor à causa.
            E são muitos os caminhos que ali se mostram, em liberdade plena, fiéis a esta ou àquela escola ou a escola nenhuma, quando o artista pega na espátula ou no pincel e deixa as suas mãos serem veículo projectante daquilo que lhe vai na alma e mui generosamente connosco quer partilhar.
            Vieram alguns quadros da colecção da própria galeria. Outros, novos são. Regalamo-nos com as sempre sugestivas aguarelas de Paulo Ossião (um mimo, aquela chávena pensativa!...); as linhas simbólicas de Edgardo Xavier; o geometrismo colorido de Denis Cavalcanti; o denso tríptico de Filipa Oliveira Antunes, a dar-nos a sua visão do rico cromatismo que se desprende da alcantilada costa de S. João do Estoril, com as vivendas penduradas lá no alto; o desregrado surrealismo de Eduardo Eloy; as grandes superfícies de Mário Vinte e Um…
            XXXI Salão, 31 artistas!
            Valem as obras de arte, é verdade; mas o que vai perdurar como memória é o magnífico catálogo, em volumoso papel couché, com a tradicional abertura de Nuno Lima de Carvalho, a reprodução, com suas cores, de uma obra de cada artista participante e, de cada, cerca de uma dezena de linhas a contar o que, do respectivo currículo, se revelou mais singular. Parabéns ao Pedro Lima de Carvalho, que tudo coordenou, e à NVV – Novos Suportes Publicitários, Lda., pelo design gráfico e mui impecável impressão.

            Claro, escusado é dizer: para os amantes da Arte, exposição a… saborear!

                                                                       José d’Encarnação
 
O desregrado surrealismo de Euardo Eloy
A arriba da Praia da Poça - por Filipa Oliveira Antunes

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O Peter Pan somos nós?

            – Sabes alguma coisa do Aristides? – perguntei a um colega, porque há muito que não tinha notícias dele.
            – Sei. Está na cama!
            – Doente, não?
            – Não. Eu disse «está na cama», não disse «está de cama»!
            – Como assim?
            – Declara que já fez muito na vida e não está para se ralar mais; por isso, não sai da cama!
            Pasmei. E, agora, lembrei-me do diálogo (ambos esses meus companheiros de trabalho já partiram, um a seguir ao outro), quando me deliciei com a encenação que Carlos Avilez fez – na versão de Miguel Graça – da obra do dramaturgo escocês Sir James Mathew Barrie (1860-1937), Peter Pan (1904). O meu colega desistira de se aborrecer com as preocupações do dia-a-dia; Peter Pan não queria crescer, achava que ser criança era o melhor do mundo.
            Muitos de nós conhecemos – ainda que vagamente, porventura – a história deste menino a quem Wendy procurava espicaçar para ser alguém e sair do universo dos sonhos na sua Ilha da Fantasia, povoada por sereias, peles-vermelhas, piratas (ai, o feroz capitão Gancho!...), fadas, aves encantadas… E perguntamo-nos:
            – Serei Wendy ou prefiro ser Peter Pan?
            Ou, como escreve Miguel Graça:
            «E nós, como não alcançamos uma coisa nem outra, porque não conseguimos alcançar nem uma nem outra coisa, somos ao mesmo tempo Peter e ao mesmo tempo Wendy, a querer viver fechados e separados do mundo, e a querer integrar-nos e a fazer parte de qualquer coisa, sempre à procura da Terra-do-Nunca».
            Uma e outra coisa: «recusar a viver a vida normal» e querer «apenas a normalidade da vida normal».
            O livro de Barrie começa assim:
            «Todas as crianças crescem, excepto uma. Depressa se apercebem de que vão crescer, e a maneira como Wendy soube foi esta.
            Certo dia, quando tinha dois anos, estava a brincar num jardim e, arrancando uma flor, correu a levá-la à mãe. Devia estar encantadora, pois a mãe levou a mão ao coração e exclamou:
            – Oh! Porque não hás-de ficar assim para sempre!?
            Foi tudo o que se passou entre elas; mas, a partir daí, Wendy soube que teria de crescer. As crianças sabem-no sempre, a partir dos dois anos. Dois é o começo do fim».
            Personagens que povoaram a nossa infância e juventude, se acaso tivemos a sorte de alguém delas nos falarem. Será, contudo, difícil que, alguma vez, não tenhamos encontrado por aí o terrível Capitão Gancho (o gancho que era a sua mão direita decepada); ou não tivéssemos imaginado a Fada Sininho a nosso lado, qual voz da consciência, a chamar-nos à realidade. E o crocodilo.
            É, pois, nesse mundo que se desenvolve a peça, para maiores de 6 anos, que o Teatro Experimental de Cascais estreou no passado dia 13 e que vai estar em cena até véspera de Natal, de sexta a domingo, com sessões às 16 horas de sábado e às 11 e às 16 de domingo, para dar azo a que os mais jovens possam ir.
            E é de não perder esse espectáculo em que os actores – em excelente (como sempre!) cenografia e figurinos de Fernando Alvarez (inolvidável a ‘reprodução’ das ilustrações de Paula Rego!...), mui adequada coreografia de movimento (Mónica Alves) e coreografia de luta do mestre de esgrima Eugénio Roque – se divertem e nos fazem divertir.
            Dir-se-ia espectáculo sem pretensões. Sê-lo-á. Mas – importa frisá-lo! – quem disse aí que fazer algo simples não implica enorme sabedoria de longa experiência acumulada?!...
            Mais uma vez, gente nova contracena com os actores ‘residentes’ do Teatro Experimental de Cascais (Teresa Côrte-Real e Luiz Rizo, por exemplo) e com o veterano e sempre jovem Ruy de Carvalho na figura, em cena, do narrador.
            Achava Peter Pan que as mães só serviam para contar histórias. Quiçá imaginemos também que Carlos Avilez e a sua equipa estão ali para contar histórias e nada mais. Sim, é verdade. Estão ali. E contam-nos histórias que nos ajudam a compreender melhor a realidade, sem que tenhamos um Peter Pan que nos ensine a voar. Eles é que nos dão esse ensinamento. Para que melhor compreendamos as vicissitudes do nosso quotidiano e saibamos evitar o crocodilo e o temível capitão Gancho. Oh! se ensinam!
                                                           José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal [Cascais], nº 213, 29-11-2017, p. 6.
O capitão Gancho

Dificuldades?

Eles divertem-se...

Peles-vermelhas...

Ruy de Carvalho, o narrador

Voar!

Teresa Côrte-Real
As fotos foram, com a devida vénia, retiradas da página do T. E. C. no facebook.