sábado, 21 de outubro de 2017

CCC – Cidadela Cimentou Comunidade!

             Na passada sexta-feira, dia 20, a Direcção do Agrupamento de Escolas da Cidadela, em Cascais, convidou para um jantar de confraternização e de convívio, na sua sede, a comunidade educativa, ou seja, os professores, os funcionários, os membros do Conselho Geral do Agrupamento, os técnicos camarários e outros que estiveram ligados à obra. Pela Câmara, esteve o vereador do pelouro da Educação, Frederico Pinho de Almeida; pela Junta de Freguesia, Emília Sabino, em representação do Presidente.
            O pretexto: mostrar e usufruir da obra, a nova cantina que o Orçamento Participativo de 2015 permitira concretizar. A inauguração oficial ocorrera a 12 de Setembro e reza a placa que assinala o evento que a inauguração foi feita «pelos cidadãos de Cascais, na presença do Presidente da Câmara, Carlos Carreiras».
            Trata-se de um espaço que proporciona, na verdade, um excelente convívio entre os comensais. Registe-se, por exemplo, que parte das paredes é de tijoleiras pintadas de um branco leitoso, o que as torna deveras agradáveis à vista; que a iluminação, directa e indirecta, resulta extraordinariamente luminosa (passe o pleonasmo) e, até, de algum requinte do ponto de vista estético. Os meus parabéns a quem trabalhou na execução (realço o empreiteiro João e a Arqª Paula Cabral). Segundo vim a saber, boa parte da colaboração foi dada pro bono, designadamente os técnicos.
            Mostra-se bonito relógio numa das paredes, um elemento simpático também pela sua estética, muito bem escolhido.
            Na parede do lado norte afixou-se a metade de uma porta velha, que foi pintada e nela se inscreveu uma frase assaz adequada:
 
                        BONS MOMENTOS PASSADOS À VOLTA DA MESA
                             DEIXAM LEMBRANÇAS PARA TODA A VIDA.

            É a tradução livre, mas muito bem pensada por Paula Cabral, da frase que se apanha na internet em inglês, de autor anónimo: «The fondest memories are made when gathered around the table».
            Também esse aspecto merece encómio e não há dúvida que é de muito aplaudir a iniciativa do jantar, sobretudo depois de verificarmos a alegria contagiante de todos os que participaram e o partilharam na mais completa descontracção, tirando fotografias, contando das suas experiências, num evidente entusiasmo por estarem juntos, quando, no frenesim do dia-a-dia, cada um anda para seu lado, a puxar o barco.
            Não ouvi discursos, porque foi mais o coração que falou!
            Parabéns, portanto, à Direcção do Agrupamento, que assim ajuntou em torno da mesa uma comunidade, que importa manter e rejuvenescer cada vez mais.

                                                                        José d’Encarnação

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Amplo louvor à cultura numa instituição singular

             Antes de dar conta do que foi a cerimónia de entrega dos prémios Vasco Graça Moura (Cidadania Cultural) e Fernando Namora (Literatura), referentes a 2017, instituídos pela Estoril-Sol, importa salientar a tónica que perpassou por toda a sessão, ocorrida, sob a presidência de Marcelo Rebelo de Sousa, no final da tarde de quinta-feira, 12 de Outubro: a ênfase dada à Cultura numa ‘casa’, onde, à partida, só era presumível pensar-se em jogo, em dinheiro, slot-machines, bacará e ‘entretenhas’ afins, sempre vulgarmente mais relacionadas com aspectos menos lisonjeiros da nossa existência.

            E um vulto sobressaiu, por todos evocado como Homem, como Escritor, como Poeta, como Tradutor insigne, em suma, eminentemente como Homem de Cultura: Vasco Graça Moura, que durante anos presidiu a este júri e até mesmo já atormentado pela doença que cedo (é sempre cedo!...) o arrebataria do nosso convívio.

            Mas, claro, doutra personalidade se falou também, porque a ele se deve, incontestavelmente, a teimosia em envolver o Casino nessa aura cultural: Mário Assis Ferreira. Foi desde que assumiu as rédeas da Estoril-Sol que a Sociedade se converteu decisivamente, contra tudo e contra todos, em paladina das Artes Plásticas, das Artes do Espectáculo, da Literatura, com os prémios que instituiu e com a regular publicação da revista Egoísta, um primor de edição!

            Foi Dinis de Abreu o mestre-de-cerimónias, apresentando os oradores a uma assistência que encheu por completo o teatro do Casino Estoril.

            Mário Assis Ferreira começou por assinalar o «profundo significado» que esta sessão detinha, «pela importância e pelo interesse que lhe dedicamos», como elevada manifestação de Cultura. Evocou, emotivamente, a combatividade extrema e exemplar de Vasco Graça Moura; sublinhou os laços de amizade e de uma certa cumplicidade que o unem ao galardoado com o Prémio Cidadania Cultural, José Carlos Vasconcelos e fez-se eco do que o júri realçara no romance Flores, de Afonso Cruz, a que fora atribuído o Prémio Fernando Namora: a elevada qualidade estética aliada a uma estrutura sabiamente modelar. Não deixou de salientar o que atrás se referiu: ser a Cultura a tónica dominante da Estoril-Sol sobretudo desde 1987; ter aceitado o desafio da Cultura, «infelizmente tão solitário»; ter-se entregado «com fé aos ideais que preconiza num tempo marcado por tantos egoísmos».

            Coube ao presidente do júri, Guilherme d'Oliveira Martins, descrever, a traços largos, o perfil de Afonso Cruz, escritor, músico, «uma das certezas da actual literatura portuguesa», numa obra de elevada qualidade estética, em que o autor soube aliar a humanitas à compreensão do quotidiano, na sua complexidade. «Há sempre flores para aqueles que as quiserem ver». De José Carlos Vasconcelos disse ser uma «personalidade ímpar», «cidadão exemplar», «contra ventos e marés defensor das culturas de língua portuguesa», tal como Vasco Graça Moura. «Uma das figuras mais marcantes da vida portuguesa», disse, acrescentando: «Não é possível falar hoje da difusão da Cultura Portuguesa sem uma referência a José Carlos de Vasconcelos», designadamente através do seu Jornal de Letras, «um jornal único, que muito preza o rigor, o diálogo, a divulgação, um serviço público da maior importância, na prossecução do bem comum».

            Coube ao Presidente da Republica entregar os galardões, duas singulares obras escultóricas; e Assis Ferreira entregou os sobrescritos com os prémios pecuniários.

            Paulo Teixeira Pinto, representante da editora Babel, que patrocina a publicação, considerou um privilégio o poder estar a sua editora associada a esta iniciativa, cuja relevância acentuou. Pela editora, integrara o júri o Doutor José Carlos Seabra Pereira, professor associado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

            Afonso Cruz agradeceu o galardão e, num improviso estudado (embora tenha dito que já se não lembrava bem do livro, porque, entretanto, já escrevera outro!...), teceu considerações sobre a importância da memória, da História, temática que – sublinhou – é, em seu entender, o ponto fulcral do romance. «Nasci em 1971, não sei o que é viver em ditadura». O que é que pode mudar? Os modelos que apresentamos às nossas crianças, que não são Gandhi ou Mandela, mas os super-heróis – e devem ser essoutros que importa imitar, bons modelos, no regresso a uma moral ontológica e não teleológica, pois «a memória é plástica, nós podemos moldá-la; a imaginação é criadora».

            José Carlos Vasconcelos – depois de se referir a Marcelo Rebelo de Sousa como «um Chefe de Estado que tem sentido de Estado e não pose de Estado, que está em muita parte e não em toda a parte» – agradeceu a honra que lhe fora concedida, «honra redobrada», frisou, atendendo ao patrono do galardão, Vasco Graça Moura, e ao facto de o primeiro galardoado ter sido Eduardo Lourenço, que estava presente.

            Leu o seu minucioso discurso, porque apostara – como o estavam a apresentar como cidadão cultural – em fazer o balanço do que fora a sua vida, que não se cingira, até aqui, aos 37 anos consecutivos à frente do Jornal de Letras, que fundara e, apesar das dificuldades, teimava em manter.

            Começara a escrever aos 13 anos, tendo dirigido duas páginas literárias em jornais locais. Esteve em todas as lutas académicas de Coimbra nos anos 70. Foi actor no TEUC – o Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, e sempre o norteou, em seguida, o exercício das duas profissões que sempre quis ter: ser advogado e escritor. Afastado das redacções, em 1971, pela Censura, viria a assinar, já depois do 25 de Abril, o programa televisivo «Escrever é Lutar». Integrou a redacção d’O Jornal. Esteve na origem da TSF – Rádio Jornal. Afirmou-se defensor da língua, que «é a nossa principal riqueza, aspecto que parece estar a ser esquecido no âmbito da lusofonia». Liberdade, justiça e ética – são palavras que norteiam a sua actividade, «a política como ética e prática em acção». «Não sei quanto tempo vou resistir», «Não procuro qualquer lugar em qualquer galeria de retratos», confessou, a terminar – e o seu testemunho calou fundo em quantos longamente o aplaudiram depois.

            O Presidente da República quis apresentar três notas prévias ao discurso que trazia escrito: 1ª) Estamos num encontro de cidadania cultural, porque este é «um acto de resistência cultural»; 2ª) Vê com alegria a reedição da obra de Fernando Namora, porque a falta de memória «é um pecado que esta casa não cometeu»; 3ª) De Vasco Graça Moura salientou o ter sido «tão excelente tradutor», o que, em certa medida, pode ter obnubilado as muitas causas em que se empenhou e dispersou.

            Quanto à obra Flores, classificou-a como «um dos livros mais autobiográficos e simultaneamente mais pungentes» de Afonso Cruz, «um dos seus livros mais interventivos» – e a sua (dele, Afonso Cruz) «não foi uma intervenção de circunstância».

            Referindo-se a José Carlos Vasconcelos, seu vizinho e amigo de longa data, teve em conta o circunstanciado currículo que ele fizera gala em apresentar – «para que conste» (escrevo eu); não hesitou em declarar que «atravessamos um período crítico da imprensa portuguesa», incitando os mais jovens a manterem essas pontes que José Carlos Vasconcelos sempre procurou estabelecer entre Portugal e o Brasil. Dos dois galardoados não quis deixar de salientar ainda a sua «generosa humildade». E terminou marcando «presença, desde já, para o próximo ano, em nome da resistência cultural».

                                                            José d’Encarnação

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Outeiro da Vela - Um sonho português, um baptismo estranho!

            A maior ambição da Comissão de Moradores do Outeiro da Vela: que o pinhal do Outeiro, pelo panorama dali abrangido sobre a baía de Cascais, não visse crescer no seu dorso o espinho atroz de uma urbanização em altura.
            A ameaça pairava no ar. Vampiros aguçavam a dentuça, na expectativa de farto repasto…
            Lutámos – que espinhos desses não queríamos num espaço justamente cobiçado pelos moradores para usufruto da comunidade.
            O bairro nascera à pressa antes do 25 de Abril, sem espaços de convivência, os apartamentos acanhados, encostados uns aos outros. Após o 25 de Abril, foi o regabofe que se conhece: a ocupação rápida, antes que fosse tarde!
            Finalmente, após inúmeras promessas adiadas e projectos rejeitados, veio o ano das eleições autárquicas e era preciso mostrar à população que, afinal, suas longas aspirações expressas no Orçamento Participativo de 2012 (OP 08), num ápice poderiam começar a ser satisfeitas, quando, em 28-10-2015, ainda se pensava na reformulação do projecto de execução.
O painel identificativo da obra em curso
Mountain Bike Skill Park
            E – vai daí! – muita leitura na internet, muito exemplo estranho analisado (há projectos desses em Denver, em Vancouver, Canmore, Kelowna e Calgary) e mui intensa pesquisa levaram a que se sugerisse uma designação sonante, que não ficasse atrás das suas congéneres estrangeiras: Mountain Bike Skill Park, expressão que poderá traduzir-se, à letra, por: Parque de Perícia para Bicicletas de Montanha!
            Convenhamos que a designação inglesa é muito mais atraente, enche a boca, deixa turista boquiaberto e indígena a franzir o sobrolho. Mas há lá designação portuguesa que lhe chegue aos calcanhares?! «Parque de Perícia para Bicicletas de Montanha»? Que saloiice!...
            Compreende-se perfeitamente a intenção e a pressa: Cascais vai ser, em 2018, Capital Europeia da Juventude. Tive o privilégio, a 29 de Setembro, de ver a minha correspondência selada não com um vulgar carimbo mecânico, mas presenteada com os selos comemorativos. O de 50 cêntimos tem cara de ancião – a homenagear (obrigado!) os que estamos bem no Outono da vida, os «menos jovens». Há, porém, um selo enorme, que mui habilidosamente a Marisa conseguiu colar no embrulho do livro dos provérbios que eu me propusera enviar para uma professora amiga. Meus senhores, uma panorâmica de Cascais com o farol de Santa Marta ao fundo! Maravilha!
            Maravilha vai ser também o Mountain Bike Skill Park, quando estiver prontinho, cheiinho de altos e baixos.

E o que é que eu vou pedir?
            Tinha que meter o bedelho! Vou pedir que a entidade competente ali coloque, em lugar de destaque, um ou dois painéis, em português e em inglês, a explicar o enorme significado histórico da designação toponímica «Outeiro da Vela».
            Vem nos livros. O Prof. J. Diogo Correia escreveu, na sua Toponímia do Concelho de Cascais (Câmara Municipal de Cascais, 1964, p. 45), que esta «eminência será um dia – que oxalá não venha longe – aproveitada para ponto de turismo da região» e explica: esse «morro, que altivamente se ergue como sentinela protectora da vila», servia de atalaia, em ocasião de perigo iminente», «ali se velava pela segurança dos moradores de Cascais e seu termo.
            Não veio muito longe, professor, esse aproveitamento turístico! De 1964 a 2018 passaram somente 54 anos!
            Os painéis são, pois, a meu ver, imprescindíveis!
            Devido a essa posição altaneira sobre a baía, em tempos imemoriais, quando a pirataria era exclusivamente a marítima, a população revezava-se a vigiar, a estar de vela, não adregasse navio pirata aproximar-se para semear devastação, pilhagem, mortandade…
            Outeiro da Vela a servir, em 2018, de radical ponto de encontro da juventude, continuará, portanto, a ser um símbolo: «Do alto desta montanha vos contemplo, senhores!».
 
                                                    José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal [Cascais], nº 207, 18-10-2017, p. 6.

O mar ao fundo... E o Cabo Espichel, mais além...

E o Palacete Palmela a espreitar por entre o arvoredo...

E a vila, ali, a seus pés...

 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ter uma licenciatura!

            Custa-me a acreditar toda essa trapalhada – de facto, até lhe poderia dar outro nome mais acutilante… – das falsas licenciaturas indicadas no currículo de detentores de cargos públicos para os quais, por lei, o «canudo», como vulgarmente se dizia, é condição sine qua non.
            Custa-me a acreditar por dois motivos.
            Primeiro, pelo que isso significa de má consciência e, até, de imaturidade. Penoso é dizê-lo, mas importa que «eles» e nós o consciencializemos.
            Depois, pelo que tal «exigência» pretende significar: a experiência vivida de três anos a estudar. Três anos, agora, uma insignificância em termos de possibilidade de aprofundar saberes e mesmo em termos de convivência e possibilidade de amadurecimento em partilha. Mas, sem dúvida, uma experiência por que se deve passar, como, em tempos, se dizia da tropa, que era o que nos «fazia homens». E três anos de estudo não são vida militar; consubstanciam, contudo, a necessidade de uma certa imprescindível disciplina, que urge aprender. Por isso se preconiza que todos possam ter acessibilidade a esse «estágio» de vida.
            Ignorância será, porém, imaginar que só a Universidade ou o Politécnico são caminhos ou veredas para atingir a maturidade ou a experiência. Os cursos profissionais, de que cada vez mais estamos necessitados, constituem óptima senda também para os que mostrem vocação para determinada área concreta da actividade humana.
            É curioso verificar – e essa reflexão amiúde se faz, felizmente – que, no perfil das redes sociais, há quem goste de assinalar que as suas habilitações foram conseguidas na «Universidade da Vida». Congratulo-me sempre, ao ler essa frase. Não pelo que ela possa encobrir de desdém por quem teve recursos para fazer um curso, mas porque, de um modo geral, revela se algum orgulho, que é como quem diz: «Amigos, sou o que sou, porque subi na vida a pulso, pelos escassos meios que tinha ao meu dispor, e estou orgulhoso por os ter aproveitado ou os estar a aproveitar!».
            «Os estar a aproveitar»! A frase saiu-me e obrigou-me a parar. Acabo de ler o livro de David Kundtz, «Parar», que tem como subtítulo «Como parar quando temos de continuar». Parei. David Kundtz demonstra a importância que têm, no nosso dia-a-dia, as pausas conscientes. E eu pensei: essa questão das falsas licenciaturas ou da eventual dificuldade em seguir a carreira académica universitária ou politécnica proporciona mais uma pausa, mesmo para os que lograram atingir o mais elevado nível de estudos: sim, como é que eu tenho posto a render os meus talentos?
                                              José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 716, 15 de Outubro de 2017, p. 11.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O meu depoimento sobre a Biblioteca Itinerante

             Vivamente me congratulo com o facto de a Fundação D. Luís I ter voltado a fazer funcionar a Biblioteca Itinerante.
            Recordo sempre com saudade os tempos de minha juventude, os anos 50. A carrinha da biblioteca parava mensalmente junto de minha casa, sita entre Birre e Torre, expressamente para mim e eu entregava e recebia os livros que seriam a minha delícia durante esse mês.
            Dessa forma, tive oportunidade de ler quase toda a obra de Emílio Salgari, de Júlio Verne, os clássicos portugueses como Almeida Garrett, Alexandre Herculano, as grandes biografias, que me encantavam enormemente.
            Ainda hoje guardo religiosamente o cartão de leitor e confesso que não teria conseguido ganhar a cultura que hoje tenho, sobretudo do ponto de vista da literatura, se não fora a atenciosidade de todos os funcionários, designadamente do saudoso Sr. Alberto. Era extraordinária, sobretudo se tivermos em consideração que a carrinha parava expressamente para mim.
            Acrescentarei que, mal entrei na redacção do Jornal da Costa do Sol, fiz questão em, todas as semanas, publicar o horário a que a carrinha passava, aos domingos, nos vários locais, porque se tratava efectivamente de uma iniciativa ao domingo e mensalmente cada local era visitado pela biblioteca itinerante.
            Congratulo-me, pois, vivamente com o retomar desta iniciativa e faço votos para que seja possível alargá-la a mais sítios que não apenas aos que ora estão previstos.

                                                                       José d’Encarnação

Nota: Este depoimento foi inserido na página da Fundação D. Luís I, a comentar a notícia do ‘ressurgimento’ da Biblioteca Móvel, a partir de 14 de Outubro de 2017. Acessível em:
A carrinha da Biblioteca Móvel

terça-feira, 10 de outubro de 2017

O brilhante exemplo do anedotário português, visto por um alemão

             Peter Koj foi professor na Escola Alemã e viveu em Cascais durante bastante tempo. É hoje, em Hamburgo, um dos paladinos na difusão da língua portuguesa, quer ensinando-a, quer promovendo iniciativas culturais relacionadas com Portugal.
            Tem mesmo uma Associação Luso-hanseática, destinada a intensificar as relações entre Portugal e a Alemanha, designadamente a sua cidade de Hamburgo, que é, como se sabe, uma das cidades alemãs que mais portugueses tem entre os seus habitantes.
            Já publicou vários livros sobre Portugal, um dos quais, com o título «E esta?», foi apresentado recentemente e é uma colecção de anedotas.
            Dizia-se nos tempos da Segunda Grande Guerra: «Se queres ouvir uma boa anedota de guerra, vai a Portugal!». O povo português tem essa grande qualidade de saber rir de si próprio. Isso Peter Koj procurou demonstrar.
            O volume está dividido em capítulos de a a i, de acordo com a temática das anedotas: «Na escola. Ditos da pequenada», «Coisas da religião», «Coisas do amor, da vida conjugal e da família», «No reino dos animais», «Entre médicos e psiquiatras», «Coisas da política, da economia e da vida social», «Entre bêbados, condutores e outros criminosos», «No Alentejo», «Miscelânea».
            Vale a pena transcrever duas passagens do excelente prefácio que o autor redigiu sob o título «O melhor é rirmos… para não chorarmos». Escreve ele, a dado passo, que, em França, há um ditado que diz que os portugueses estão sempre bem dispostos: les Portugais toujours gais. E acrescenta:
            «Em boa companhia, os portugueses gostam de comer e beber, de cavaquear… e de contar anedotas. Assim, de repente, ouve-se alguém perguntar: «E esta?». E logo se contam, à desgarrada, as anedotas alegadamente mais recentes».
            «A anedota pressupõe, portanto», confessa o Autor, «uma certa anestesia moral. Quem levar uma anedota a sério, medindo-a pela bitola moral, corre o risco de regressar a tempos medievais, quando as anedotas serviam de exemplo nos sermões que se ouviam no púlpito. O Humanismo restituiu à anedota o seu direito como 'jogo espirituoso'».
            É um livro bilingue, em alemão na página da esquerda, tendo, na página da direita, a tradução em português; e cada um dos capítulos atrás indicados tem, naturalmente, uma ilustração, uma caricatura que também ela é uma verdadeira anedota.
            Permita-se-me que transcreva duas das 140 anedotas ali contadas.

            66. A reencarnação do burro
            Dois amigos conversam:
            - Na próxima encarnação, gostaria de voltar como burro.
            Resposta do outro:
            - Podes desistir, ninguém volta duas vezes da mesma.

            79. Uma boa pergunta
            Pergunta a médica:
            - A senhora costuma falar com o seu marido depois de ter relações sexuais?
            - Se estou bem disposta e tenho um telefone a jeito, falo sim.

            Mais uma vez se se mostra a enorme capacidade que os portugueses têm de rir de si próprios, de procurar levar a vida a sério, sim, mas bem condimentada sempre com uma excelente anedota.
            Bem-haja, pois, o Dr. Peter Koj por nos brindar com esta colectânea que serve para cimentar mais o elo entre portugueses e alemães, designadamente de Hamburgo neste âmbito cultural e linguístico. Anote-se, ainda, que um dos objectivos do Autor é que o livro «não só contribua para alegrar os leitores, mas que possa servir também para fins educativos, neste caso, para o ensino do Português. Como são escritas num Português contemporâneo e corrente, servem sobretudo para a aquisição de um melhor domínio da oralidade».
            E tem toda a razão!

                                                           José d’Encarnação

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Escrita no Baixo Alentejo – das origens aos nossos dias

             Está a decorrer no Baixo Alentejo, desde Maio de 2016, uma exposição, que tive ocasião de visitar, a 23 de Setembro, no Museu Municipal de Aljustrel, intitulada «Escrita no Baixo Alentejo das Origens aos Nossos Dias».
            Trata-se de uma iniciativa da Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo, cujo comissário é Rui Cortes, sendo a investigação histórica e a produção de conteúdos da responsabilidade do Professor Amílcar Guerra. A exposição destina-se a ser vista na Rede de Museus do Baixo Alentejo, que compreende os municípios de Aljustrel, Alvito, Beja, Castro Verde, Ferreira do Alentejo, Mértola, Ourique, Serpa, Vidigueira e Museu Regional de Beja. A execução da exposição e respectiva museografia esteve a cargo da empresa Glorybox.
            São as seguintes as partes em que a exposição se divide:
           a – territórios inscritos (os primeiros contactos e o aparecimento da Escrita, com particular destaque para as estelas da chamada «escrita do Sudoeste»);
           e  – Escrita no Mundo Romano;
           i  – A escrita e a Idade Média, ou seja, os textos paleocristão e islâmicos;
           o  – Escrita Moderna: a transmissão da palavra;
           u  – o mundo contemporâneo.
            O catálogo está muito bem concebido, com excelentes fotografias.
            De todas as inscrições aqui indicadas, eu assinalaria uma, de particular interesse, pois que data do século XI. Refere-se à construção de um minarete por ordem de Al-Mutadid. É única, no seu género, em território português, e conserva-se in situ «junto a uma fonte, no interior do castelo» de Moura. «Representa», explica-se na legenda, «a legitimação da propriedade do território de Moura, muito disputado pela existência de jazidas de prata».
            Trata-se, pois, de uma mostra, singela mas eloquente, que não poderá perder-se e que documenta bem como a escrita foi algo a que o Homem se dedicou desde tempos imemoriais. Ainda hoje, quando queremos que algo permaneça, escreve-se, porque, como diz o ditado, «a palavra voa, mas a escrita permanece»: verba volant, scripta manent.
 
                                                                   José d’Encarnação